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Paulo Garcez
Consultor na área de Tecnologia de Informação, formado pela Poli-USP e com MBA pelo IBMEC SP. Trabalhou em empresas do grupo Itaú, LG e UOL. Amante dos esportes, de uma boa conversa e do bom café.

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Enviado por Paulo Garcez, 22/01/2010 as 00h00

Agressão Santa

O líder nos permite expressar impulsos proibidos e desejos secretos. Há lideres que nos seduzem porque não parecem ter os conflitos que temos. O líder elimina o terror e permite que nos sintamos onipotentes.

Muitas vezes a importância do líder vem do fato de que é ele quem realiza o mágico ato iniciador: pode ser qualquer coisa, desde um juramento até um ato sexual ou assassinato.

A lógica desse ato é que aquele que primeiro cometer um assassinato é o assassino; todos os outros são seguidores.

Atos que são ilegais para o indivíduo podem ser justificados se todo o grupo partilhar da responsabilidade por eles (Freud, Totem e Tabu).

Aquele que inicia o ato assume o risco e a culpa. O resultado é realmente mágico: cada membro do grupo pode repetir o ato sem culpa. Eles não são culpados, só o líder é. A participação no grupo redestila a realidade cotidiana e dá a ela uma aura de sagrado.

Tudo isso nos leva a refletir melancolicamente sobre como o homem médio é não-heroico, mesmo quando segue heróis. Ele simplesmente os sobrecarrega com sua bagagem usando os líderes como desculpa.
(foto acima é referência à famíla Manson)

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Enviado por Paulo Garcez, 31/12/2009 as 00h00

Vitória de Pirro


Multiplicamos doenças por prazer, inventamos uma necessidade horrível, uma dúvida vergonhosa, regalamo-nos na licenciosidade, nutrimo-nos da noite, criamos balbúrdia no íntimo - e não saímos.

Por que sairíamos?

Despojado de sutis complicações, quem poderia olhar o sol senão com temor? Este é o nosso refúgio contra a contemplação, nosso único refúgio contra o simples e o claro.

Quem iria sair rastejando de sob o obscuro para ficar indefeso no ar ensolarado?

Não há terror da obliquidade tão certo quanto o mais notável terror da desesperança de saber como é simples a nossa mais profunda necessidade, como é intensa, e como é impossível satisfazê-la.

A ironia da condição do homem está em que a mais profunda necessidade é livrar-se da angústia da morte e do aniquilamento; mas é a própria vida que a desperta e, por isso, temos que nos recusar a ser plenamente vivos.

O que significaria exatamente, neste terra, ser inteiramente destituído de repressão, viver em plena liberdade física e psíquica? Só pode significar renascer para a loucura, sem os traços de caráter que ocultam essa psicose secreta.

Despojado de suas complicações, [isto é, de todas as defesas do caráter -- repressão, negação, percepção errônea da realidade] quem poderia olhar o sol senão com temor?

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Enviado por Paulo Garcez, 21/12/2009 as 00h00

Amadurecer

Na época em que a criança se torna um adulto, a procura inverti­da de uma existência pessoal através da perversão se instala em um mol­de individual e se torna mais secreta.

Tem de ser secreta, porque a comunidade não irá tolerar a tentativa das pessoas de se individualiza­rem por completo. Se for haver uma vitória sobre a deficiência e a limitação humanas, terá que ser um projeto social, e não individual. A sociedade quer que caiba a ela a decisão de como as pessoas irão transcender a morte; só irá tolerar o projeto ‘causa sui’ se ele se encai­xar no projeto social padrão. Caso contrário, haverá o alarma de "Anarquia!"

Este é um dos motivos para a existência de intolerância e censura, sob todos os modos, com relação à moralidade pessoal: as pessoas temem que a moralidade padrão vá ser solapada - outra ma­neira de dizer que temem já não poderem mais controlar a vida e a morte.

Diz-se que uma pessoa foi "socializada" precisamente quando aceita sublimar o caráter corporal-sexual de sua infância. Esses eufemismos significam, em geral, que a pessoa aceita traba­lhar no sentido de se tornar pai de si mesma ao abandonar seu projeto e entregá-los aos Pais.

O complexo de castração faz seu trabalho, e a pessoa se submete à realidade social; pode agora reduzir seus desejos e reivindicações e atuar com segurança no mundo dos poderosos adultos. Pode até doar seu corpo à tribo, ao Estado, ao mágico e protetor guarda-chuva dos adultos e seus símbolos; assim, seu corpo não será mais uma perigosa negação para essa pessoa.

Não existe diferença real entre uma impossibilidade infantil e uma impossibilidade adulta: a única coisa que a pessoa consegue é um auto-engano aprendido pela prática – aquilo que chamamos de um caráter adulto.

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Enviado por Paulo Garcez, 25/09/2009 as 00h00

Depoimento

Ainda bem. Imagina se eu tivesse ficado preso na perda de 2 anos atrás. Mas tem uma certeza: a de que passou o tempo de escrever só sobre a perda. Porque passou mesmo. Não teria sentido ficar dois anos escrevendo sobre um sentimento que ficou prá trás, só para ficar comovendo as pessoas.

Ao longo desse tempo, infelizmente, percebi que muitas pessoas que estavam próximas de mim na época da morte dela se afastaram de mim quando as coisas entraram nos eixos. Até mesmo algumas pessoas próximas parecem não ter se dado conta.

Acho que incomodei e continuo incomodando ao trocar a tristeza por uma alegria exuberante ao ver como a vida pode nos dar coisas lindas depois de nos tirar outras tantas.

Entendi há pouco o sentido na frase de Nelson Rodrigues: "... o mineiro só é solidário no câncer".

As pessoas têm mais dificuldade em nos ver alegres, em evidência e chamando a atenção. Não estão tão preparadas para isso como estão para nos ajudar no meio da tragédia.

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Enviado por Paulo Garcez, 18/09/2009 as 00h00

Civilização

Em que reside o valor peculiar das idéias religiosas?

A civilização exerce uma pressão pelas renúncias do instinto animal. Se imaginarmos suspensas as suas proibições e se então se pudesse tomar a mulher que se quisesse como objeto sexual; se fosse possível matar sem hesitação o rival ao amor dela ou qualquer pessoa que se colocasse no caminho, e se, também, se pudesse levar consigo qualquer dos pertences de outro homem sem pedir licença, quão esplêndida, que sucessão de satisfações seria a vida!

A verdade é que logo nos deparamos com a primeira dificuldade: todos os outros têm exatamente os mesmos desejos que eu, e não me tratarão com mais consideração do que eu os trato. Assim, na realidade, só uma única pessoa se poderia tornar irrestritamente feliz através de uma tal remoção das restrições da civilização, e essa pessoa seria um tirano, um ditador, que se tivesse apoderado de todos os meios de poder.

O que então restaria seria um estado de natureza, muito mais difícil de suportar. É verdade que a natureza não exigiria de nós quaisquer restrições dos instintos, nos deixaria proceder como bem quisés­semos; contudo, ela possui seu próprio método, particularmente eficiente, de nos coibir. Ela nos destrói, fria, cruel e incansavelmente. Foi precisamente por causa dos perigos com que a natureza nos ameaça que nos reunimos e criamos a civilização, a qual também, entre outras coisas, se destina a tornar possível nossa vida comunal, pois a principal missão da civilização é nos defender contra a natureza.

Todos sabemos que, de diversas maneiras, a civilização já faz isso bastante bem, e é claro que, na medida em que o tempo passa, o fará muito melhor. Ninguém, no entanto, alimenta a ilusão de que a natureza já foi vencida, e poucos se atrevem a ter esperanças de que um dia ela se submeta inteiramente ao homem. Há os elementos, que parecem não se submeter a qual­quer controle humano: a terra, que treme, se escancara e sepulta toda a vida humana e suas obras; a água, que inunda e afoga tudo num torvelinho; as tempestades, que arrastam tudo o que se lhes antepõe e, finalmente, o penoso enigma da morte, contra o qual remédio algum foi encontrado e provavelmente nunca será. É com essas forças que a natureza se ergue contra nós, majestosa, cruel e inexorável; uma vez mais nos traz à mente nossa fraqueza e desamparo, de que pensávamos ter fugido através do trabalho de civilização.

Tal como para a humanidade em geral, também para o indivíduo a vida é difícil de suportar. A civilização de que participa impõe-lhe uma certa quantidade de privação, e outros homens lhe trazem outro tanto de sofrimen­to, seja apesar dos preceitos de sua civilização, seja por causa das imperfei­ções dela. A isso se acrescentam os danos que a natureza indomada, o que ele chama de Destino, lhe inflige.

Muito já se conseguiu com um primeiro passo: a humanização da natureza. De forças e destinos impessoais ninguém pode aproximar-se; permanecem vividamente distantes. Contudo, se nos elementos se enfurecerem paixões da mesma forma que em nossas próprias almas, se a própria morte não for algo espontâneo, mas o ato violento de uma Vontade maligna, se tudo na natureza forem Seres à nossa volta, do mesmo tipo que conhecemos em nossa própria sociedade, então poderemos respirar livremente, sentir-nos em casa no sobrenatural e lidar com nossa insensata ansiedade através de meios psíquicos.

Contra esses violentos super-homens externos podemos aplicar os mesmos métodos que empregamos em nossa própria sociedade; podemos tentar conjurá-los, apaziguá-los, suborná-los e, influenciando-os assim, despojá-los de uma parte de seu poder.

No decorrer do tempo, fizeram-se as primeiras observações de regulari­dade e conformidade à lei nos fenômenos naturais, e, com isso, as forças da natureza perderam seus traços humanos. O desamparo do homem, porém, permanece e, junto com ele, seu anseio pelo pai e pelos deuses. Estes mantêm sua tríplice missão: exorcizar os terrores da natureza, reconciliar os homens com a crueldade do Destino, particularmente a que é demonstrada na morte, e compensá-tos pelos sofrimentos e privações que uma vida civilizada em comum lhes impôs.

Ficou sendo então tarefa dos deuses nivelar os defeitos e os males da civilização, assistir os sofrimentos que os homens infligem uns aos outros em sua vida em conjunto e vigiar o cumprimento dos preceitos da civilização, a que os homens obedecem de modo tão imperfeito. Esses próprios preceitos foram creditados com uma origem divina; foram elevados além da sociedade humana e estendidos à natureza e ao universo.

Foi assim que se criou um cabedal de idéias, nascido da necessidade que tem o homem de tornar tolerável seu desamparo, e construído com o material das lembranças do desamparo de sua própria infância e da infância da raça humana. Pode-se perceber claramente que a posse dessas idéias o protege em dois sentidos: contra os perigos da natureza e do Destino, e contra os danos que o ameaçam por parte da própria sociedade humana. (Freud)

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