Quarta-feira, 15/10/2008
Reproduzo aqui uma afirmação feita à newsletter Almanaquito, da jornalista Maria do Rosário Caetano (radicada em São Paulo), pela atriz Ittala Nandi, organizadora e diretora do Festival do Paraná de Cinema Brasileiro Latino, que está acontecendo no Museu Oscar Niemeyer nesta semana:
"Há poucos dias escrevi para você falando da precariedade das programações e dos poucos cinemas existentes nesta capital do Paraná. Falei também sobre o fato deste rico estado ser um dos últimos a receber programações de qualidade, principalmente do nosso cinema brasileiro e em consequencia desde 'abandono' cultural ligado ao audiovisual, vejo uma comunidade que acredita no cinema como um 'ser' em extinção, e nós sabemos perfeitamente que não é essa a verdade. Nesse sentido o 3.º Festival do Paraná de Cinema Brasileiro Latino está não só motivando, incentivando, mas iluminando uma comunidade que se encontrava à parte do moderno, à parte do caminho da luz do cinema e massacrada pela televisão."
Há alguma verdade nas palavras de Ittala,sem dúvida, sobretudo quando reclama da demora na distribuição de determinados tipos de filmes por aqui. Mas também há uma grande dose de exagero ao falar "de poucos cinemas existentes" (temos um dos cinco maiores circuitos exibidores do país) e ao afirmar que a comunidade curitibana está "à margem do moderno, à parte do caminho da luz".
Será que Ittala acredita ser um tipo de messias que nos arrancará, com um festival financiado com verbas públicas por meio da Lei Rouanet, dos "nossos rincões incivilizados", rumo à terra prometida do bom cinema e da alta cultura. Haja pretensão!!!
Divulgação/VideoFilmes
Curitiba ficou de fora do lançamento nacional de linha de Passe, que só agora chega à cidade.Vocês já repararam que muitos filmes nacionais muitas vezes estréiam com atraso em Curitiba e, não raro, sequer chegam a ser exibidos na cidade? O premiado - e comovente - Linha de Passe, por exemplo, só entrou em cartaz duas semanas depois de seu "lançamento nacional". Era uma Vez levou meses para aportar no circuito local. E assim vai.
Entre os distribuidores e exibidores, reza a lenda de que isso acontece porque, em Curitiba, o público que gosta de prestigiar a produção nacional é reduzido, cabe em ou dois ônibus excursão. Será?. Os filmes, dizem alguns, simplesmente não têm muito apelo para a platéia da cidade. Parece que o mesmo acontece em Porto Alegre, que também prefere longas-metragens estrangeiros, sobretudo americanos. À exceção, é claro, dos filmes gaúchos, que vez ou outra fazem um razoável número de espectadores por lá.
Por que será que isso acontece?
Divulgação/Globo filmes
Vitória Frate e Thiago Martins: amor entre o morro e o asfalto.Breno Silveira é um sujeito corajoso. Depois de levar mais de cinco milhões de espectadores aos cinemas brasileiros com Dois Filhos de Francisco, o campeão da Retomada – período da produção nacional que se inicia com Carlota Joaquina – Princesa do Brasil (1995) – ousou não apostar no certo. Seu segundo longa-metragem, Era uma Vez, que estréia hoje em Curitiba, não se parece em momento algum com uma tentativa de repetir o sucesso da cinebiografia de Zezé Di Camargo e Luciano. E esse é um dos trunfos do filme.
Era uma Vez, como o próprio título anuncia, oferece ao espectador um quê de fábula moral, com forte influência da tragédia Romeu e Julieta, já que o romance entre os protagonistas Dé (Thiago Martins) e Nina (Vitória Frate) evoca o clássico de William Shakespeare em vários aspectos.
Dé é favelado, mora no Morro do Cantagalo, tem um irmão (Rocco Pitanga) envolvido com o tráfico e trabalha num quiosque à beira da praia, vendendo água-de-côco e cachorro-quente. Nina é uma "pobre menina rica". Apesar de viver em um apartamento na Avenida Vieira Souto, de frente para o mar de Ipanema, sua mãe morreu, é filha única e seu pai (Paulo César Grande) vive de aparências.
Na esteira de sucessos recentes da produção nacional, como Cidade de Deus (menos) e Tropa de Elite (mais), Era uma Vez confronta a vida no "morro" e no "asfalto". E, embora o filme peque ao recorrer a alguns clichês desgastados desse filão – como sanguinolentos chefes do tráfico, bailes funk e corrupção policial –, Silveira acerta a mão no que interessa. A história de amor entre Dé e Nina convence, emociona, mobiliza a platéia. Há química entre os atores e verdade na trama. Nesses aspectos, o diretor repete seus acertos de Dois Filhos de Francisco.
Feito sobretudo para o público jovem, Era uma Vez é muito bem realizado. A seqüência inicial – flashback de um incidente na infância de Dé, que selou o destino trágico dele e de seus dois irmãos – é espetacular.
Depois, o filme perde um pouco o ritmo, caindo nas armadilhas de uma história que pretende ser várias ao mesmo tempo: romântica, engajada e cheia de suspense. No seu terço final, contudo, Era uma Vez ganha densidade, tensão e seu desfecho, que assume o risco de ser absolutamente anticlímax, choca o espectador. Faz justiça a Shakespeare. E emociona de verdade.
Divulgação
Julianne Moore e Mark Ruffalo vagam em um mundo esfacelado pela barbárie em Ensaio sobre a Cegueira.Ensaio sobre a Cegueira, lançado na última sexta-feira, estreou muito bem no Brasil. Com 95 cópias distribuídas pelo País, o filme de Fernando Meirelles inspirado no romance homônimo do escritor português José Saramago levou mais de 120 mil pessoas aos cinemas no primeiro fim de semana de exibição. Esse resultado confere ao filme a melhor média por cópia de todo o mercado.
A boa resposta do público brasileiro confirma que Meirelles tornou-se uma espécie de "atestado de qualidade" quando oassunto é cinema nacional, pelo menos na cabeça do grande público.
Eu gostei bastante do filme, que admite diversas leituras.Pode ser visto como um filme de suspense, com toques de ficção científica e de saga futurista, na linha do ótimo Filhos da Esperança, de Alfonso Cuarón. Também pode ser interpretado como uma fábula poderosa e sombria sobre o estado de cegueira em que vivemos no mundo contemporâneo, incapazes de enxergar injustiças sociais, atos de crueldade e opressão que acontecem muitas vezes ao nosso lado sem que tomemos conhecimento.
Para Saramago, um homem de esquerda, o individualismo crescente é uma praga e apenas um surto, um choque das proporções da epidemia assola o mundo no longa de Meirelles, é que poderá, talvez, forçar os seres humanos a olhar para dentro de si mesmos e a tentar rever suas atitudes e valores.
Um dos aspectos que mais chamou minha atenção em Ensaio sobre a Cegueira,além da brilhante atuação de Julianne Moore, foram os excepcionais trabalhos do diretor de fotografia (Cesar Charlone, de Cidade de Deus) e da direção de arte. Eles foram capazes de se apropriar de locações em São Paulo (e Montevidéu), para criar um mundo esfacelado, caótico e barbarizado que em momento algum me pareceu fakem cosmético.
Embora alguns personagens - como o crudelíssimo barman encarnado por Gael García Bernal - sejam menos complexos e mais manqueístas do que deveriam, tal o peso que têm na história, recomendo Ensaio sobre a Cegueira com entusiasmo. Vejam!
Divulgação/ Paramount
Meryl Streep (ao centro) prova por que é a atriz mais versátil do cinema americano.O musical, dirigido por Phyllida Lloyd, é baseado no espetáculo homônimo que ela mesma dirigiu e cuja a história "costura", do princípio ao fim, canções do grupo sueco ABBA. O quarteto vendeu mais de 300 milhões de cópias em toda sua carreira e figura entre as formações mais cultuadas do pop mundial mais de 25 anos depois de ter encerrado sua carreira.
Já na cena inicial de Mamma Mia!, quando se ouve os primeiros acordes da trilha sonora, a platéia freme, se abre em sorrisos. A identificação é imediata. É como se a música dos escandinavos fosse uma senha para relaxar e embarcar numa viagem cujo tom é a nostalgia, o saudosismo. Os anglófonos têm uma expressão perfeita para descrever esse tipo de extravagância estética: guilty pleasure (ou prazer culpado, em português).
Por mais que, racionalmente, se tenha plena consciência de que não se está diante de uma grande obra de arte, somos seduzidos a entregar os pontos. Felizes da vida.
A trama, bobinha mas bem-armada, conta a história de Sophie (a encantadora Amanda Seyfried, do seriado Big Love), uma garota que, às vésperas do casamento, decide descobrir quem é seu pai e convida três antigos namorados da mãe para a cerimônia, em uma paradisíaca ilha da Grécia. As confusões começam assim que os três – Harry (Colin Firth, de Simplesmente Amor), Sam (o ex-007 Pierce Brosnan) e Bill (Stellan Skarsgard, de Dogville) – colocam os pés no local, e Donna (Meryl Streep, ótima como sempre), a mãe da garota, tem de lidar com seu passado amoroso.
Apesar de cantado praticamente do começo ao fim, Mamma Mia! diverte sem ser repetitivo e também conquista o público com um humor que oscila entre o levemente malicioso e o pastelão assumido, garantido por Meryl e suas impagáveis melhores amigas, a escritora de livros de culinária Rosie (Julie Walters, de Billy Elliot) e a perua colecionadora de maridos Tanya (Christine Baranski, de O Grinch).
Engraçada, Meryl Streep canta (bem) e dança ao som de hits como "Dancing Queen'', em um dos pontos altos do filme. Outro destaque é o coro grego formado por moradores da ilha que, na melhor tradição do teatro clássico, acompanha e, por vezes, comenta a ação.
Estrondoso sucesso mundial, Mamma Mia! já figura entre as maiores bilheterias do gênero em toda a história do cinema, com a assombrosa soma acumulada de US$ 418 milhões – custou apenas US$ 52 milhões. Acreditem ou não, já aparece ao lado de Noviça Rebelde, Chicago e Grease – Nos Tempos da Brilhantina entre os títulos mais vistos. Mas não é difícil entender o fenõmeno: o filme leva o público a uma espécie de catarse nostálgica e coletiva.
As pessoas chegam a bater palmas e cantar junto com os atores que, como não soam como profissionais da voz, acabam por não intimidar quem está na platéia.
E atenção: não saia do cinema antes dos créditos. Há um bis que vale o filme.
Divulgação
Leonardo DiCaprio é um ex-jornalista que se torna agente da CIA em Rede de Mentiras.Nada acontece ao mero acaso em Hollywood. Da escolha das temáticas dos filmes às datas de estréia, tudo é pensado, discutido, minuciosamente planejado. Portanto, não surpreende que os produtores do filme Rede de Mentiras tenham decidido lançá-lo nos Estados Unidos no dia 10 de outubro (ao Brasil, a produção chega em novembro), a menos de um mês da eleição presidencial que confrontará o democrata Barack Obama e o republicano John McCain, marcada para 4 de novembro.
Adaptação do romance de ação e espionagem de David Ignatius, o filme, dirigido pelo britânico Ridley Scott (de Gladiador e O Gângster), traz uma visão bastante cínica e negativa da política externa norte-americana, sobretudo nas regiões do Oriente Médio e da Ásia Central (Afeganistão). Retrata, em detalhes, como os EUA, em nome de sua hegemonia, da defesa de seus interesses econômicos e geopolíticos, podem passar por cima tanto de inimigos quanto de aliados.
Um Leonardo DiCaprio barbudo, para aparentar mais idade do que tem na vida real, vive Roger Ferris, ex-jornalista que vira agente da CIA e é enviado a Amã, capital da Jordânia, para ajudar a inteligência local a caçar um suposto líder da Al Qaeda que planeja atacar os Estados Unidos. O neozelandês Russell Crowe, grisalho como no excelente O Informante (de Michael Mann), é seu chefe, Ed Hoffman, um homem astuto e manipulador com quem Ferris manterá uma relação ambígua pautada pela tensão e pelo jogo de forças.
A frase “Não acredite em ninguém. Engane todo mundo”, estampada nos cartazes e no material de divulgação de Rede de Mentiras, ganha especial significado em um ano-chave para o futuro dos Estados Unidos como 2008, sobretudo numa campanha na qual os temas “guerra” e “terrorismo” parecem estar entre os pontos nevrálgicos no embate entre McCain e Obama.
Entre os percalços enfrentados por Rede de Mentiras, a impopularidade dos EUA e sua política externa no Oriente Médio quase pôs a produção em risco. Scott tentou rodar muitas das cenas em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, um dos destinos turísticos mais populares da atualidade. O Conselho Nacional de Mídia do país, entretanto, negou ao diretor permissão de filmar em seu território depois de ler o roteiro, considerado politicamente ousado (e perigoso) demais. Como conseqüência, as locações tiveram de ser transferidas para o Marrocos, que já serviu de cenário para produções importantes como Babel.
Outra polêmica envolvendo o projeto foi a escolha da bela atriz Golshifteh Farahani, estrela do cinema iraniano, para um papel importante no filme, a enfermeira Aisha, que trata do personagem de DiCaprio em Amã. Chegou-se a noticiar que o governo do Irã havia vetado a participação de Golshifteh em Rede de Mentiras e a impedido de sair de Teerã, mas ela acabou atuando no longa-metragem e esses rumores nunca foram confirmados.
O roteiro de Rede de Mentiras é assinado por William Monahan (vencedor do Oscar por Os Infiltrados), com supervisão de Steve Zaillian, também vencedor de uma estatueta por A Lista de Schindler e autor do script de O Gângster, penúltimo longa-metragem de Ridley Scott.
Divulgação/Paris Filmes
O Nevoeiro é uma espécie de metáfora sobre os EUA na era BushComo a dobradinha Stephen King-Frank Darabont rendeu um dos grandes filmes americanos dos últimos 20 anos, Um Sonho de Liberdade, fui conferir O Nevoeiro, misto de ficção científica,suspense e terror que estreou na última sexta-feira em Curitiba. Não me arrependi.
Trata-se de uma produção de baixo orçamento que, como as boas histórias de King, oferecem ao leitor/espectador bem mais do que sugerem.
Depois que uma violenta tempestade devasta uma cidadezinha no estado de Maine, David Drayton (Thomas Jane, de O Justiceiro - um artista local - e seu filho de 8 anos correm para o mercado, antes que os suprimentos se esgotem. Porém, um nevoeiro incomum naquela região toma conta da cidade, deixando David e um grupo de pessoas presas na loja- entre elas um cético advogado de Nova Iorque (Andre Braugher) e uma fanática religiosa, brilhantemente interpretada por Marcia Gay Harden, premiada com o Oscar por Pollock.
David logo descobre que a estranha névoa esconde algo sobrenatural e que sair do mercado pode ser fatal. Mas conforme o grupo tenta desvendar o mistério, o caos se instala e o mercado se torna uma espécie de microcosmos dos Estados Unidos nos dias atuais, onde pensadores liberais e pluralistas, educadores esclarecidos e políticos verdadeiramente democratas dividem espaço com fundamentalismo cristão, xenofobia e racismo.
Inteligente e, acima de tudo, surpreendente, especialmente no seu desfecho, o filme provoca, assusta e faz pensar. Vale a pena conferir.
E vocês, que são fãs de Stephen King, quais são suas adaptações favoritas? As minhas, além de Um Sonho de Liberdade, são Carrie, a Estranha, O Iluminado e Conta Comigo. E, agora, O Nevoeiro.
Pesquisa encomendada pelo Sindicato dos Distribuidores do Rio de Janeiro e de abrangência nacional aponta que os brasileiros são fãs dos filmes Hollywood(72% os acham ótimos ou bons)e preferem assistir a cópias dubladas (56% dos entrevistados) do que legendadas (37% dos freqüentadores) no cinema.
E a maneira como mais gostam de ver filmes é em DVD (44%). Também com dublagem. A rejeição às legendas começa a crescer entre nós.
Como sempre prefiro a versão original, com as vozes verdadeiras dos atores, fiquei assustado. Será que, em breve, o Brasil será como na maior parte dos países da Europa, onde filmes dublados dominam o mercado?
Divulgação/Europa filmes
Moragan Freeman e Greg Kinnear: unidos pela tristeza.Morgan Freeman é um grande ator. Suas atuações em clássicos contemporâneos como Um Sonho de Liberdade, Os Imperdoáveis e Menina de Ouro, filme que lhe deu o Oscar de coadjuvante, não mentem. Acontece que, de alguns anos para cá, Hollywood tem insistido em lhe dar papéis que de alguma forma mascaram seu talento: basta conferir o ótimo Batman – O Cavaleiro das Trevas e o interessante O Procurado, ambos em cartaz nos cinemas, para perceber isso. Em ambos, vive personagens nada complexos, sem muitas nuances, bem aquém do que ele é capaz de fazer.
Embora não seja um grande filme, Banquete de Amor, que acaba de chegar às locadoras, devolve um pouco a Freeman, recentemente envolvido em grave acidente de carro, um pouco de sua "humanidade". Na trama, ele é Harry Stevenson, um professor universitário que se afasta das salas de aula depois que seu filho único morre de uma overdose de heroína. Ele se sente culpado por nunca ter percebido qualquer sinal de que isso pudesse um dia acontecer.
Enquanto busca fazer as pazes consigo mesmo, Harry encontra em um café que costuma freqüentar uma série de pessoas que, de alguma forma, tenta ajudar, como uma espécie de compensação pelo que não pôde fazer pelo filho morto. Vira um "salva-vidas" emocional de corações partidos. Entre eles está Bradley Smith (o talentoso e subestimado Greg Kinnear, de Pequena Miss Sunshine), sujeito de ótima índole, honesto, sincero, mas um tanto ingênuo.
Primeiro, Bradley perde a esposa (Selma Blair) para outra mulher. E, mais tarde, casa-se com uma agente imobiliária bela e provocante (Radha Mitchell, de Melinda & Melinda), que esconde dele estar vivendo há anos um complicado caso com um homem casado.
Inter-racial
Com personagens interessantes e um bom elenco, Banquete do Amor promete mais do que efetivamente consegue oferecer ao espectador. Erra ao misturar vida real com pitadas de realismo fantástico, ingrediente que quase faz a receita desandar. Ainda assim, o filme pode cativar o espectador. E Freeman, assim como a grande Jane Alexander (de Kramer Vs. Kramer e Diz Que Me Ama), que vive sua mulher, têm muito a ver com isso. Em um raríssimo exemplo de casal inter-racial de meia idade e classe média alta no cinema norte-americano, eles emprestam à produção motivos para conferi-la.
Divulgação
Angelina Jolie treina McAvoy para ser um grande assassino em O Procurado.O Procurado, que estréia hoje nos cinemas, tem uma trama que beira o absurdo e, se você for aquele tipo de espectador que busca realismo e coerência em absolutamente tudo que vê, nem se arrisque a conferir o filme. Vai se revoltar e regurgitar a pipoca. Dito isso, vamos ao que interessa: o espetáculo audiovisual incomum proporcionado pelo longa-metragem.
Tente imaginar uma trama na qual é possível enxergar a trajetória de um projétil a olho nu, na qual existam atiradores tão fantásticos e talentosos que possam disparar um tiro em curva. Ou perseguições de carros que parecem saídas de uma produção de ficção científica à la Blade Runner e não de um filme de ação. Pois, isso é O Procurado. Gostou? Então, corra para o cinema e divirta-se.
Retirado do universo imaginário das histórias em quadrinhos, o longa é assinado pelo russo Timur Bekmambetov, revelado por Guardiões da Noite, campeão de bilheterias no país de Tolstói, assim como sua seqüência. O enredo em torno do qual O Procurado é construído não passa de uma grande bobagem: existiria no mundo uma confraria de assassinos que remonta à Idade Média. Elimina pessoas em nome da manutenção de um certo equilíbrio social. Trata-se de um “privilégio” hereditário, como nas antigas corporações de ofício, no caso, de tecelões oriundos da Europa Oriental. Por conta desse fardo, digamos, genético, o tímido Wesley Gibson (o excelente James McAvoy, de Desejo e Reparação), funcionário de uma empresa burocrática e genérica, vê sua vida se transformar da noite para o dia. Um perdedor por vocação, ele descobre ser “o cara” ao ser informado que é filho de um desses superassassinos, morto por uma dissidência da confraria.
Para se preparar para sua “nova vida”, contudo, ele precisa receber treinamento de uma poderosa matadora (Angelina Jolie, perfeita no papel), comandada pelo todo-poderoso Sloan (Morgan Freeman, em mais um papel de “ser superior”). Wesley recebe uma missão, mas, no meio do caminho, percebe que pode estar sendo manipulado. Ou não.
McAvoy encarna com desenvoltura um herói dentro da tendência inaugurada pela Trilogia Bourne, estrelada por Matt Damon: é frágil, inseguro, pouco atlético, mas, no fundo, dotado de coragem e considerável senso ético. Mas está longe de ser perfeito. O desempenho do ator escocês empresta alguma dignidade a um filme-pipoca acima da média, apesar da banalidade de seu enredo.
O Procurado, é preciso admitir, tem senso visual apurado, humor e nunca se torna cansativo. Bekmambetov acerta a mão, e dentro do que se propõe, oferece inovação na sua proposta de estetização da violência. Não é pouco.
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