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Sexta-feira, 04/07/2008

Blogs > Central de Cinema

Central de Cinema

Quem faz o blog
Enviado por Paulo Camargo, 29/06/2008 às 20:26

Wall-E é brilhante


Pixar/Disney


Pixar/Disney / Wall-E e Eva: os robôs também amam.
Wall-E e Eva: os robôs também amam.

Wall-E, nova produção da Pixar em parceria com a Disney, é um dos melhores filmes que vi neste ano. Um deslumbramento do ponto de vista visual - o que não chega a ser novidade para os estúdios que produziram jóias como Ratatouille e Procurando Nemo -, a animação também é um achado em outros aspectos.

É genial a idéia de um protagonista que não fala, só emite sons -- e o próprio nome. Essa caracerística faz com que a primeira metade do longa-metragem, que se passa numa Terra devastada, coberta de entulho, triste, poeirenta e sombria, beira a perfeição. Nesse cenário de profundo desolamento, brota lirismo: o robô, uma empilhadeira de dejetos velha e obsoleta, se apaixona por Eva,uma máquina de última geração, com look de iPod, que vem ao planeta em busca de sinais de vida orgânica.

Crítico em relação ao que o homem contemporâneo tem feito como o meio ambiente e a si mesmo, o filme consegue escapar do tom politicamente correto chato, porque também lança mão de humor refinado, romantismo à moda antiga e uma narrativa ágil e envolvente. Não percam.

26/06/2008 às 16:38

O assassino e o ilusionista nas locadoras



 / Catharine Zeta Jones e Guy Pearce: marginais que se encontram.
Catharine Zeta Jones e Guy Pearce: marginais que se encontram.

Estão chegando às locadoras dois filmes um tanto singulares sobre personagens igualmente fora do comum: o mágico húngaro Harry Houdini, que de fato existiu, e o assassino serial britânico Sweeney Todd, espécie de lenda urbana inglesa e tema de diversos livros, peças de teatro e filmes.
Exibido sem grande alarde nos cinemas este ano, Atos Que Desafiam a Morte não é uma cinebiografia de Houdini (1974 – 1926), mito do ilusionismo que, no início dos século 20, quando já estava radicado nos Estados Unidos, era uma espécie de superstar de dimensões planetárias.
O filme, assinado pela australiana Gillian Armstrong (de Adoráveis Mulheres), foca nos meses que antecedem a morte prematura do mágico, aos 56 anos. Guy Pearce (de Amnésia) empresta ao personagem complexidade e, sobretudo, ambigüidade.
No centro da trama está o relacionamento de Houdini com a escocesa Mary McGuire (Catherine Zeta-Jones), uma mulher que ganha a vida como falsa vidente em teatros burlescos, aplicando pequenos golpes, nos quais envolve, como cúmplice, sua filha, a menina Benji (a excelente Saoirse Ronan, indicada ao Oscar de coadjuvante por Desejo e Reparação). Os dois se conhecem durante uma turnê do mágico pela Grã-Bretanha.
Como se trata de um filme sobre os limites entre a ilusão e a realidade, a mentira e a verdade, Gillian Armstrong consegue, com sutileza e elegância, contar uma história de amor entre duas pessoas que têm muito a esconder do mundo e um do outro. Não são heróis convencionais, mas, de certa forma, marginais. Essa dualidade, somada a fluidez da narrativas, fazem de Atos Que Desafiam a Morte um filme acima da média.

Sangue
Vencedor do Oscar de melhor direção de arte e do Globo de Ouro de melhor filme (comédia/musical) neste ano, Sweeney Todd, o Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet, por sua vez, é uma bela adaptação para o cinema do premiado musical de Stephen Sondheim, autor de West Side Story.
Sob o comando de Tim Burton, com quem já havia trabalhado em Ed Wood, Edward Mãos-de-Tesoura e A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça, Johnny Depp (também vencedor do Globo de Ouro) brilha como um homem com sede de vingança na Inglaterra do século 19. Preso por um crime que não cometeu, Benjamin Barker sai da cadeia transformado em Sweeney Todd, que, com sua verdadeira identidade, tem apenas a profissão: barbeiro.
Obcecado com a idéia de matar o juiz (Alan Rickman) que o condenou, casou-se com sua mulher e adotou sua filha, Todd encontra em Mrs. Lovett (Helena Bonham Carter, de Clube da Luta), famosa por fazer "as piores tortas de Londres", a parceira ideal para seu plano sanguinário.
A bela trilha sonora e o estonteante visual gótico, bem ao gosto de Burton, seduzem, mas podem causar estranhamento a quem não está acostumado a musicais, ainda mais quando se trata de uma história de terror. Não é um filme para todo mundo.

24/06/2008 às 13:55

Agente 86 é uma bomba nostálgica


Divulgação


Divulgação / Anna Hathaway e Steve Carell: dupla sem graça.
Anna Hathaway e Steve Carell: dupla sem graça.

Nostalgia pode ser um sentimento muito perigoso. Capaz de provocar atos fadados ao naufrágio. Como, por exemplo, adaptar – e atualizar – o seriado cult Agente 86, criado nos anos 60 pelo diretor e humorista Mel Brooks. Ícone da televisão norte-americana, o espião Maxwell Smart (Don Adams, impagável) era uma espécie de hibrido entre James Bond e o inspetor Clouseau, personagem do grande Peter Sellers nos filmes da série A Pantera Cor-de-Rosa.
Em sua encarnação século 21, o desastrado agente secreto ganha vida na pele do ator Steve Carell, que fez sucesso em filmes como Pequena Miss Sunshine, O Virgem de 40 Anos e no seriado The Office. Até aí, tudo bem. A escolha foi acertada, apesar de Carell ter pisado na bola no péssimo A Volta do Todo Poderoso. Carell é fã confesso da série e ficou na linha de frente do projeto como produtor-executivo.
Toda essa devoção, porém, não é suficiente para que o filme consiga decolar. Talvez porque a série criada por Mel Brooks e Buck Henry tinha como inspiração um mundo polarizado pela Guerra Fria, no qual a espionagem era território fértil para a ficção – e, por que não dizer, para a comédia paródica. A corrida tecnológica entre Estados Unidos e União Soviética explicava a profusão de traquitanas desenhadas especialmente para os agentes secretos tanto do seriado quanto dos filmes protagonizados por James Bond. Hoje, essas engenhocas todas devem divertir as crianças. E só.
Mas vamos à trama de Agente 86. Como no seriado, Maxwell (Carell) é um espião um tanto trapalhão, que luta contra os perversos agentes da organização criminosa Kaos (seria uma versão moderna da KGB?). Em um dos ataques à sede de sua organização, conhecida pela sigla C.O.N.T.R.O.L.E. (equivalente à CIA ou à Scotland Yard), os vilões roubam os arquivos com as identidades secretas dos espiões espalhados pelo mundo e colocam em marcha seu plano terrorista.
Sem opções, o Chefe (Alan Arkin, vencedor do Oscar de coadjuvante por Pequena Miss Sunshine) vê-se obrigado a enviar Maxwell para combater os criminosos. Para acompanhá-lo (ou salvá-lo), é designada a agente 99 (a adorável Anne Hathaway, de O Diabo Veste Prada), para quem o herói, que um dia foi obeso e inseguro, tentará provar ser ousado, corajoso e másculo.
Com a missão de desmantelar a Kaos e suas atividades ilegais, como o tráfico de armas nucleares, a dupla viaja pelo mundo colecionando piadas (quase todas sem graça) e as mais inusitadas situações – como um vilão gigantesco com problemas emocionais e matrimoniais, para quem Maxwell serve de terapeuta em meio a uma perseguição.
Embora, às vezes, consiga ser engraçado – como na seqüência em que os agentes 86 e 99 estão a bordo de um avião que sobrevoa a Chechênia – o filme é formulaico e tolo. Não tem a sutileza do seriado. Tampouco o charme. As piadas, todas simplórias demais, devem agradar quem busca diversão básica e descerebrada. Afinal, há gosto para tudo. Mas, cuidado, a bomba pode explodir na sua cara.

Enviado por Paulo Camargo, 13/06/2008 às 11:51

Sex and the City é um "filme de mulherzinha"?


Divulgação/New Line


Divulgação/New Line / Sex and the City - O Filme é um retrato da
Sex and the City - O Filme é um retrato da "mulher moderna" ou não? Eis questão.

A série norte-americana Sex and the City fez tanto sucesso - e teve tamanho impacto na cultura pop - que passou a ser descrita como um retrato fiel da "mulher moderna". Será? Tenho cá minhas dúvidas sobre quantas representantes do sexo feminino conseguem se enxergar nas aventuras e desventuras do quarteto nova-iorquino formado pela escritora fashionista e romântica Carrie (Sarah Jessica Parker), pela cerebral e empreendedora Miranda (Cinthia Nixon), pela liberada e algo ninfomaníaca Samantha (Kim Catrall) e pela puritana e maníaca compulsiva Charlotte (Kristin Davis).

Cabe às leitoras responderem, já que não me julgo capaz de responder sobre a "relevância socioantropológica" das personagens, todas muito simpáticas, mesmo quando irritantes.

O fato é que Sex and the City - O Filme, um dos mais inesperados êxitos internacionais de bilheteria, é muito mais bem comportado do que o seriado da HBO. Menos comédia e mais drama, bem menos sexo e mais cidade. Dos sonhos. Despudoradamente românticos. E é isso que me leva a questionar essa história toda de "retrato da mulher contemporânea". Menos, né?

Não me entendam mal. Eu gostava (e gosto) bastante da série. Engraçada, perspicaz, bem escrita e sexy, sem ser chula. Ou banal. E não desgostei do filme, que me divertiu bastante em algumas partes. Só não vejo muito bem motivos para enxergar tanto significado no quarteto, na verdade arquétipos possíveis de mulher, mas, certamente, não os únicos. Ou o mundo estaria perdido entre saltos altos, roupas de grife e taças de martini. Vazias.

Acho que é um assunto a ser discutido. Entre mulheres e homens, que parecem torcer o nariz - e outras partes do corpo - diante da possibilidade de assistr a esse "filme de mulherzinha". Discordo do conceito, mas já ouvi essa frase tantas vezes que...

09/06/2008 às 09:54

Tempo de blockbusters


Divulgação/Paramount


Divulgação/Paramount / Shia LaBoeuf e Harrison Ford: encontro carismático.
Shia LaBoeuf e Harrison Ford: encontro carismático.

Pois é, os cinemas de Curitiba já estão completamente tomados pelos blockbusters do verão norte-americano. Nem tudo presta, mas dizer que é todos os títulos em cartaz são lixo inassistível também seria preconceituoso demais da minha parte.

As novas aventuras de Indiana Jones, apesar de não estarem à altura do primeiro filme da série, Caçadores da Arca Perdida, não deixam muitom a dever aos outros dois filmes da franquia. Divertem e mantêm um certo gosto de nostalgia, agora em dose dupla. Primeiro, em relaão aos seriados dos anos 30, 40 e 50, que inspiraram George Lucas e Steven Spielberg. E, agora, existe um segundo tipo de saudosismo,em decorrência do próprio distanciamente entre Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal e seus antecessores. Há quem tenha visto os primeiros longa-metragens na infância e reencontrar o herói é uma viagem no túnel do tempo emocionante.

A trama é um tanto rocambolesca, propositalmente inverossímil. Mistura cultura pré-colombiana e ufologia, ficando um pouco parecida demais com a série A Lenda do Tesouro Perdido, espécie de subproduto das aventuras de Indiana Jones. Imitação da imitação? Talvez. Mas concordo que, assim mesmo, o filme tem lá seu charme. Harrison Ford, mesmo aos 65 anos, cumpre seu papel com dignidade e o carisma de sempre. E encontra um "herdeiro à altura": Shia LaBoeuf é promissor.

Crônicas de Nárnia
O segundo episódio da adaptação cinematográfica das histórias criadas pelo escritor britânico C.S. Lewis, O Príncipe Caspian é um filme competente, talvez não tão envolvente quanto o primeiro capítulo da saga, mas boa diversão para seu público-alvo, crinças e adolescentes. Eu, no entanto, dorim durante a projeção. Devia estar cansado. Ou velho demais para mergulhar na história, bem narrada, embora o filme resulte um pouco longo demais - algo cada vez mais comuns nas produções em cartaz.

Enviado por Paulo Camargo, 16/05/2008 às 17:22

Longe Dela investiga a memória


Divulgação


Divulgação / Julie Christie tem desempenho sublime em Longe Dela.
Julie Christie tem desempenho sublime em Longe Dela.

Havia dois grandes trabalhos indicados ao Oscar de melhor atriz neste ano. Acabou ganhando o da francesa Marion Cotillard, irretocável em Piaf – Hino ao Amor. Mas, se a estatueta tivesse ido parar nas mãos da veterana Julie Christie, não teria sido uma escolha injusta. A inglesa – vencedora do prêmio da Academia em 1965, por Darling – A Que Soube Amar – tem uma das grandes atuações de sua carreira em Longe Dela, filme que estréia hoje no Unibanco Arteplex.

O drama marca a promissora estréia na direção da jovem atriz canadense Sarah Polley (de O Doce Amanhã) e traz Julie no papel de Fiona, uma mulher que está perdendo contato com a realidade em decorrência da doença de Alzheimer. Ela começa a cometer atos estranhos, como não encontrar o caminho de casa, trilhado tantas vezes, ou guardar uma frigideira no freezer. "Parece que estou sumindo aos poucos", confessa a personagem em uma das cenas. E, por conta dessa confusão mental que aos poucos se agrava, seu casamento com Grant (Gordon Pinsent) entra em crise.

O belo roteiro – também escrito por Sarah Polley e um dos indicados ao Oscar – empresta do conto "The Bear Came over the Mountain" (da escritora canadense Alice Munro), no qual é baseado, a narrativa fragmentada, que, de certa forma, reproduz a consciência esfacelada de Fiona. Por conta dessa opção, o espectador vai fazendo descobertas sobre a personagem, seu passado e suas motivações, muito aos poucos, na medida em que a narrativa se desdobra. Por exemplo, a aparente felicidade do casamento com Grant se mostra falsa quando Fiona já está internada numa clínica. Em suas visitas diárias, ele chega a desconfiar de que a mulher não esteja de fato doente e possa estar finjindo para puni-lo por aventuras extraconjugais do passado. Não é o caso.

Ainda assim, Fiona, com o que lhe resta de consciência, acaba se envolvendo emocionalmente com Aubrey (Michael Murphy), outro paciente da clínica que vive numa cadeira de rodas e não consegue falar. Ele também é casado e sua esposa (Olympia Dukakis, vencedora do Oscar de coadjuvante por Feitiço da Lua), assim como Grant, não gosta muito do que está acontecendo entre ele e Fiona.

Conduzido com extrema delicadeza, Longe Dela é um pequeno grande filme, construído a partir de detalhes de sua trama. Discute o amor, o casamento e, sobretudo, a precariedade da condição humana e a transitoriedade das certezas que defendemos, por vezes, com tanto afinco.

13/05/2008 às 15:27

A Ponte discute o tema suicídio com respeito e coragem


Divulgação/ Imagem filmes


Divulgação/ Imagem filmes / O documentário A Ponte registra momentos que antecedem a morte de pessoas que saltam da Golden Bridge.
O documentário A Ponte registra momentos que antecedem a morte de pessoas que saltam da Golden Bridge.

Está chegando às locadoras brasileiras um filme que eu recomendo, apesar de tratar de um tema bastante difícil: o suicídio. O documentário A Ponte, de Eric Steel, tem como ponto de partida uma constatação perturbadora: mais pessoas escolhem se matar saltando da Golden Bridge, em São Francisco, na Califórnia, do que em qualquer outro lugar do mundo.

O cineasta e sua equipe filmaram a ponte durante todo o ano de 2004, gravando a maioria dos 24 suicídios cometidos naquele período - vale dizer aqui que, em alguns casos, foi possível prevenir que algumas dessas tragédias se consumassem, quando havia alguém monitorando as gravações, o que nem sempre acontecia.

Em um segundo momento da produção do documentário, Steel conversou com familiares e amigos de grande parte dos suicidas, em busca de explicações tanto para o ato quanto para a escolha da ponte. Acaba se deparando com histórias de vida tão complexas quanto tristes. Todas com um traço em comum: um histórico de luta contra a depressão e o sofrimento de se sentir "fora do lugar".

Respeitoso, nem um pouco sensacionalista e comprometido com a missão de debater um assunto tabu que a mídia discute muito pouco, A Ponte é um dos bons filmes que vi neste ano. Por sua coragem e pelo esmiuçado trabalho de apuração de cada um dos casos.

11/05/2008 às 11:01

Em Speed Racer, visual estonteante não compensa trama rala


Divulgação


Divulgação / O melhor do filme são os efeitos especiais e a direção de arte.
O melhor do filme são os efeitos especiais e a direção de arte.

Quando garoto, na década de 70, eu era fã incondicional do seriado de anime japonês Speed Racer. O design arrojado dos carros de corrida e o drama familiar envolvendo o desaparecimento e suposta morte do irmão mais velho do jovem piloto me comoviam. Torcia para que Speed um dia descobrisse, finalmente, que o misterioso Corredor X e Rex Racer eram a mesma pessoa.

Passadas quase quatro décadas, fui assistir ontem à versão para o cinema de Speed Racer, assinada pelos irmãos Wachowski, responsáveis pela trilogia Matrix, da qual não gosto muito - à exceção do primeiro filme, muito interessante visualmente, os demais são ruins, mal construídos e, sobretudo, pretensiosos.

Speed Racerenche os olhos com efeitos especiais espetaculares, que se remetem aos videogames e aos próprios animes. A direção de arte, que também simula o universo multicolorido das animações janponesas, também impressiona. Falta ao roteiro, no entanto, tensão dramática, tridimensionalidade. As melhores seqüências são as de corrida. A relação entre Speed (Emile Hirsch, de Na Natureza Selvagem) e o Corredor X (Matthew fox, da série Lost) não tem a carga dramática que os desenhos, por mais infantis que fossem, ofereciam.

E o que dizer, então, da crítica maniqueísta e rasteira que o filme faz às grandes corporações, "responsáveis por todos os males do mundo", inclusive pela manipulação do resultado das corridas de automóveis? Por mais que haja uma verdade relativa nesse ataque aberto, há formas mais inteligentes de abordar o assunto - sem falar que é no mínimo bizarro ver esse tipo de discurso em uma produção com merchandising da primeira à última cena, inclusive da nossa brasileiríssima Petrobras, que "patrocina" um dos carros de corrida e pagou para ter sua marca veiculada em Speed Racer. Hipocrisia ou ingenuidade, eis a questão?

Como o filme estreou mal nos EUA, Speed Racer, uma superprodução, deve ser um dos fracassos comerciais do ano. Acho que o público de hoje, salvo os mais saudosistas, não conseguem criar empatia pela história e pelos personagens, todos muito superficiais. Talvez porque, como Matrix, tenha forma demais e conteúdo de menos. Pelo menos, desta vez, os Wachowskis nos pouparam de suas pseudodiscussões filosóficas e psicologismos de almanaque.

08/05/2008 às 10:43

Margot e o Casamento é bom filme sobre relações familiares


Divulgação


Divulgação / Nicole Kidman e Jennifer Jason Leigh: irmãs em crise.
Nicole Kidman e Jennifer Jason Leigh: irmãs em crise.

O cineasta e roteirista norte-americano Noah Baumbach, ao que tudo indica, escontrou um tema em torno do qual construir sua obra: a vida em família e seus efeitos colaterais. Se em seu penúltimo longa-metragem, o premiado (e excelente) A Lula e a Baleia, o diretor fez uso de referências autobiográficas para descrever o impacto do divórcio de um casal de intelectuais nova-iorquinos sobre seus filhos, em Margot e o Casamento, seu novo trabalho, Baumbach disseca a tensa relação entre duas irmãs.

No filme, que acaba de chegar às locadoras, Margot (Nicole Kidman, de As Horas) e Pauline (Jennifer Jason Leigh, de Short Cuts), apesar de filhas dos mesmos pais, não poderiam ser mais diferentes. Estão afastadas por um tempo por conta da absoluta incompatibilidade entre suas personalidades: enquanto Margot é uma bem-sucedida escritora, com excesso de auto-estima e forte tendência a subestimar o próximo, Pauline é frágil, ansiosa e tem a vida marcada por fracassos sucessivos. Mas parece mais normal do que Margot.

Quando Pauline -- que mora na casa na qual as irmãs foram criadas -- decide se casar com Malcom (Jack Black, de King Kong), um sujeito um tanto excêntrico, sua irmã mais velha resolve viajar com seu filho Claude (Zane Pais) para a comemoração. O reencontro entre as duas, como costuma acontecer nessas ocasiões, acaba trazendo à tona uma série de questões mal-resolvidas, tanto em relação ao relacionamento entre as irmãs quanto no que diz respeito à família. O fato de estarem no mesmo cenário onde cresceram desencadeia esse processo de lavação de roupa suja.

Mais seco e cruel do que A Lula e a Baleia, Margot e o Casamento não é um filme fácil de ser assistido, não. É realista demais e redentor de menos. Tanto que não repetiu nos cinemas o sucesso de seu antecessor -- no Brasil, está sendo lançado direto em DVD sem ter passado pelo circuito de exibição. Mas vale a pena enfrentá-lo. E por vários motivos.

Nicole e Jennifer estão muito convincentes em seus papéis, dando-lhes nuances interessantes, como uma fina ironia que, por vezes, desemboca no sarcasmo explícito sem que isso soe falso ou feito para chocar. Ponto para o roteiro de Baumbach, no qual é visível a influência de dois cineastas. Um deles é John Cassavetes, considerado o pai do cinema independente americano, cuja obra é praticamente toda construída em torno de relacionamentos humanos, muitas vezes familiares. O outro é Ingmar Berman, cujo filme Sonata de Outono, sobre a difícil embate entre mãe (Ingrid Berman) e filha (Liv Ullmann) lembra muito Margot e o Casamento.

05/05/2008 às 14:42

Homem de Ferro tem cérebro


Divulgação


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Quando Superman -- O Retorno estreou, em 2006, tive a nítida sensação de estar diante de um super-herói anacrônico, que havia envelhecido irremediavelmente, tão contaminado pela cartilha do bom mocismo hollywoodiano que não tive outra alternativa a não ser dormir no cinema. Fui forçado a assisti-lo de novo para poder escrever a seu respeito.

Passados dois anos, vivi uma experiência oposta vendo o surpreendente Homem de Ferro, que prova ser possível fazer blockbusters inteligentes. Na pele do ótimo Robert Downey Jr., que finalmente tem a grande chance de reascender ao estrelato, o super-herói "metaleiro" da Marvel é uma surpresa para lá de agradável. O filme tem humor, ritmo, ótimo elenco e, sobretudo, um roteiro inteligente.

Para início de conversa, Homem de Ferro não é um exercício de patriotada norte-americana explícita. Critica abertamente a indústria bélica dos Estados Unidos por, não importa o lado do qual o país esteja lutando, apenas pensar em lucro, fazendo da guerra um negócio. Vende armas para Deus e o diabo sem culpa ou escrúpulos. Disso a gente já sabia, mas dito assim, com todas as letras, em uma superprodução made in Hollywood, é algo novo. Com esse enfoque, me vem à mente apenas O Senhor das Armas, com Nicolas Cage.

Sob a direção competente de Jon Favreau, que faz uma ponta hilária na cena do cassino logo no início do filme, Homem de Ferro, um super-herói de segundo time, eleva-se diante da concorrência. Não é chato. Tampouco previsível. Graças a Downey Jr., um ator inteligente, sem qualquer vocação para encarnar mocinhos, o personagem é complexo, vaidoso, contraditório, carente e prepotente.

No papel do vilão, Jeff Bridges também tem grandes momentos, assim como a bela Gwyneth Paltrow, que consegue sair da vala comum das mocinhas de filmes do gênero para mostrar que existe vida inteligente nesse tipo de personagem.

O filme é muito bom. E ponto final.

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