Sexta-feira, 03/07/2009
José Cruz/ABr
Todas as atenções para Sarney: assédio da imprensa faz segurança do senado isolar caminho do presidente da Casa.Há bem mais política (ou politicagem) do que se imagina por baixo da discussão sobre o afastamento de José Sarney da presidência do Senado. Muito além dos horrores administrativos da Casa, o que está em jogo são as eleições de 2010. Uma guerra antecipada que confronta os três principais partidos do país – PMDB, PT e PSDB.
Vale recapitular que não era para Sarney estar no cargo. O maranhense foi a solução de última hora encontrada por Renan Calheiros (o verdadeiro dono do PMDB no Senado) para manter os mesmos de sempre no controle da Casa. “Intocável”, Sarney surgiu como o único nome capaz de minar o acordo feito dois anos antes para que o posto fosse ocupado por um petista.
Além do poder institucional, os peemedebistas sempre quiseram o cargo para ganhar peso na formação de alianças para o ano que vem. Já o PT desejava dar estabilidade à reta final do governo Lula. Comandar o Senado significaria evitar constrangimentos como a votação que acabou com a CPMF, em 2007.
Por último, o PSDB quer mesmo é ver o circo pegar fogo. Caso Sarney opte por uma saída temporária, quem assume é Marconi Perillo, um tucano de Goiás por quem Lula nutre uma notória antipatia. Com a presidência nas mãos dele, seria possível, por exemplo, dar início à CPI da Petrobras.
Entre tantos interesses, essa é uma história que termina sem moral. Para o cidadão comum, o que interessa é que os escândalos acabem e que os problemas internos do Senado sejam finalmente resolvidos. Mas não é bem nisso que os senadores estão pensando.
Na verdade, eles só pensam em 2010.
Roosewelt Pinheiro/Agência Senado
Arns: Sarney pode continuar no cargo, mas deve se afastar das investigações.Osmar Dias (PDT) é o único representante do estado que defende abertamente o afastamento. Alvaro Dias (PSDB) e Flávio Arns (PT) preferem que ele se mantenha no cargo.
A proporção reflete de certa forma o posicionamento dos colegas dos outros estados. A estimativa é que Sarney ainda conte com apoio irrestrito de pelo menos metade dos demais 80 senadores.
Para Osmar Dias, o afastamento de Sarney seria uma "atitude de grandeza".
Já Alvaro Dias afirma que Sarney só deve se afastar caso decida isso sozinho. Ele defende que apenas o afastamento não funciona.
Por último, Flávio Arns afirma que Sarney deve permanecer no cargo, mas precisa evitar qualquer contato com as investigações.
E só para refrescar a memória...
Na última crise que atingiu a presidência do Senado, em 2007, os três paranaenses votaram pela cassação de Renan Calheiros.
Renan foi julgado por quebra de decoro por ter as despesas com uma filha fora do casamento supostamente pagas por um lobista. Ele acabou absolvido pela maioria dos colegas, mas teve de deixar o cargo.
Sarney, ao que tudo indica, nem o cargo vai deixar.
Publicado na edição impressa de hoje da Gazeta do Povo:
Beto Richa reelegeu-se prefeito de Curitiba no ano passado com uma gigantesca coligação que reunia 11 partidos, ou seja, 42% das 26 legendas que entraram na disputa. Juntou na “chapona” gente de direita (DEM), centro (PPS) e esquerda (PSB). Informalmente, contou ainda com o apoio de parte do PMDB, o maior partido do Paraná (e do Brasil).
Uma aliança descomunal, diziam alguns. Um enorme Frankenstein, pensavam outros. O fato é que, no Brasil, vencer uma eleição é como fazer uma compra a prazo – a conta sempre chega mais adiante e, dependendo do negócio, os juros são mais altos que o valor do produto.
Pois além da megacoligação, o comitê de Beto Richa ainda dividiu o nanico PRTB, único parceiro do candidato Fábio Camargo (PTB). Na prática, disputou a eleição com 11 partidos e meio (sem contar uns 30% invisíveis do PMDB). A estratégia inegavelmente deu resultado. O prefeito foi reeleito no primeiro turno com acachapantes 77,27% dos votos.
Com uma aliança de seis partidos, a petista Gleisi Hoffmann ficou em segundo lugar com 18,17%. Fábio Camargo e seu partido e meio ficaram em antepenúltimo lugar (entre oito nomes), com 0,53%. Digamos que se tivesse contado com todo o apoio do PRTB subiria uns 0,2%.
Já Beto Richa não cairia dos 77%. E, se caísse, tanto faz como tanto fez.
Eis que na semana passada, nove meses após a eleição, apareceram os vídeos em que os rebeldes do PRTB recebem dinheiro – supostamente em troca de apoio à chapa do prefeito. A gravação parece um remake de filme velho, mas os atores com certeza têm uma atuação acima da média. O resultado final faz tremer – tanto quanto as mãos de Manasses Oliveira ao falsificar a assinatura de recibos.
Sim, essa é a fatura que ainda faltava chegar. Independentemente do envolvimento de alguém do comitê de Beto Richa, o que não está comprovado, o preço é alto demais. Seria como trocar 0,2% dos votos pelo mandato de prefeito e, além disso, a candidatura a governador em 2010.
A história toda serve de lição. Em política, nem sempre vale a pena fechar todos os espaços.
Sem relativizar, Roberto Requião (PMDB) foi reeleito para o Palácio Iguaçu em uma coligação que contava apenas com o pequeno PSC. Ganhou autonomia para fazer o que quer no governo, apesar das pequenas concessões ao PT e ao próprio PSDB.
Já Beto Richa entrou na disputa do ano passado com uma gestão sempre aprovada por mais de 80% dos curitibanos. Só eles já garantiriam uma vitória com os pés nas costas. Daria muito menos dor de cabeça contar apenas com o apoio dessa gente.
Arquivo /Gazeta do Povo
Alvaro: "estão vendo fantasmas."Ao invés de deixar definitivamente claro se houve ou não dinheiro da coligação pró-Beto Richa no "Comitê Lealdade", do PRTB, as explicações sobre o caso foram apenas mais farinha no ventilador.
Rebateu-se um vídeo com outro vídeo. E nessa nova obra a culpa aparentemente cai no colo do senador Alvaro Dias, adversário de Beto pela indicação do PSDB à campanha para governador, em 2010.
Ou seja, usou-se problema de uma campanha eleitoral anterior para colocar fogo na que está por vir. Alvaro diz que não tem nada a ver com a situação - e agora vai ser mais necessário provar se houve a armação insinuada ou não.
Em resumo, além da origem do dinheiro, fica pendente pelo menos outra explicação para solucionar o caso. E o que era um problema eleitoral transformou-se em outros dois recheados de política.
Reprodução
Raul D´Araújo Santos, Manassés de Oliveira e Alexandre Gardolinski, em vídeo que mostra o pagamento aos candidatos desistentes: imagens levaram o prefeito Richa a demiti-losDinheiro de pinga, diria qualquer coordenador de comitê de periferia. É essa "miséria", porém, que envolve cada um dos 23 desistentes das candidaturas a vereador de Curitiba pelo PRTB no ano passado.
Trata-se do preço supostamente pago a eles para que o partido, um dos tantos nanicos do país, entrasse de cabeça na campanha à reeleição do prefeito Beto Richa (PSDB).
Pode parecer pouco, mas não é. É um escândalo dos grandes, especialmente pelas imagens das maracutaias. Tem contagem de dinheiro, falsificação de assinaturas, notas frias, tudo de horripilante.
Ainda é cedo para execrações públicas. É melhor esperar pelo desenrolar dos fatos. Afinal, Beto Richa exonerou todos os envolvidos. Hoje à tarde haverá uma coletiva para tratar o assunto.
O errado é tentar relativizar, achar que trata-se apenas de uma pegadinha. As imagens são um soco no estômago do cidadão comum. Para esse sujeito, R$ 1,6 mil são quase quatro salários mínimos. Uma fortuna.
Quer saber mais sobre o assunto?
Veja a matéria da Gazeta do Povo
Veja a matéria do Fantástico
Reprodução
Publicidade do Congresso: eles querem notícias positivas.A enxurrada de escândalos que assola o Senado nos últimos quatro meses incita a discussão sobre os rumos da cobertura jornalística do Congresso Nacional. Puxados pelas palavras de autodefesa de José Sarney e pela contemporização do presidente Lula sobre a crise dos atos secretos, parlamentares voltaram carga contra o tom negativo do noticiário sobre o Poder Legislativo.
A tese deles é simples: por que os jornais não enfatizam a divulgação do que os congressistas fazem de bom? O questionamento é recheado de teorias da conspiração, como o suposto interesse dos meios de comunicação em desestabilizar o parlamento.
Nessa linha, não faltam propostas de uma cisão para valer, uma guerra declarada entre imprensa e políticos. Durante um seminário sobre ética e transparência nos Poderes da República, promovido pela Câmara na quinta-feira, o deputado federal Glauber Braga (PSB-RJ) chegou a levantar a possibilidade de que veículos privados que recebem dinheiro público publiquem o salário dos funcionários.
No mesmo evento, o presidente da Frente Parlamentar de Combate à Corrupção, Rubem Santiago (PDT-PE), disse que a imprensa trabalha no “varejo”, apenas em busca dos “cabeças” dos escândalos. Enquanto isso, os jornalistas não estariam preocupados em investigar a fundo como funcionam os esquemas de corrupção para ajudar a eliminá-los.
Fora o ranço e a mágoa de certos depoimentos, algumas reclamações fazem sentido. Mas a análise não pode ser tão simplista, de antítese entre notícias boas e ruins.
Em primeiro lugar, é necessário esclarecer que os fatos supostamente positivos, como a aprovação de projetos de interesse da sociedade, saem sim nos jornais. Até porque eles são divulgados com presteza pelos veículos oficiais, ou seja, não há como sonegar informação, fingir que ela não existe.
Já as maracutaias, obviamente, não estão soltas no ar, disponíveis e com explicações facilitadas por assessorias de imprensa. Elas não foram feitas para serem descobertas, para dar mídia - isso qualquer pessoa entende, menos os envolvidos nos casos.
O que muitas excelências parecem compreender cada vez menos é que a carreira política exige lisura. E que cuidar de dinheiro público é algo muito mais sensível do que administrar as finanças da própria empresa ou família.
Do ponto de vista jornalístico, vale nesse caso a surrada máxima de que um cachorro morder uma pessoa não é notícia, mas o contrário, sim. Dizem que a metáfora é a prerrogativa do sensacionalismo, mas na verdade é uma demonstração de que as pessoas não querem ou não precisam ser informadas do que elas já sabem.
Apresentar propostas relevantes, participar de debates em plenário e ser assíduo nas comissões são requisitos básicos de qualquer parlamentar. Na cabeça do eleitor-leitor, está bem claro que eles foram escolhidos para isso mesmo.
Já os parlamentares que insistem em se meter em escândalos... É da mordida deles que os cães tanto temem.
"Quando uma noticia não é verídica ela não será evitada pela exigência de que os jornalistas frequentem um curso de formação. É diferente de um motorista que coloca em risco a coletividade. A profissão de jornalista não oferece perigo de dano à coletividade tais como medicina, engenharia, advocacia nesse sentido por não implicar tais riscos não poderia exigir um diploma para exercer a profissão. Não há razão para se acreditar que a exigência do diploma seja a forma mais adequada para evitar o exercício abusivo da profissão."
Pérola do presidente do STF, Gilmar Mendes, no voto que acabou com a obrigatoriedade do diploma para jornalista.
O grande problema da questão da regulamentação das profissões é a comparação, a relativização. Nada contra ser comparado a um cozinheiro. Mas nessa mesma linha, qual a diferença do cozinheiro para um advogado (ele mesmo citou a advocacia...) ou um juiz?
E quando um magistrado erra ao conceder habeas-corpus a um banqueiro, por exemplo, o diploma evita o erro, o exercício abusivo da profissão?
Nesse caso, sim, fica claro que somos todos cozinheiros.
Só alguns, porém, permanecem legalmente como chefs de cuisine.
Um dia após dizer que crise “é do Senado” e não dele, o presidente da Casa, José Sarney, apresentou ontem uma campanha publicitária para ressaltar a importância do parlamento brasileiro.
A medida contrastou com a manifestação de nove senadores que sugeriram um pacote moralizador para a Casa.
Durante a apresentação da campanha, Sarney lamentou que a cobertura da imprensa seja focada em fatos negativos do Poder Legislativo.
O slogan escolhido para a campanha de valorização institucional é “O Congresso faz parte da sua história”.
O material é composto por seis peças promocionais que tratam de avanços na legislação que seriam de mérito de deputados e senadores.
Entre eles, a Lei Maria da Penha, que trouxe punições mais rígidas para a violência contra a mulher, e a proposta que instituiu o seguro-desemprego.
Apesar do anúncio da propaganda, Sarney não quis antecipar o teor do relatório que será apresentado na próxima segunda-feira sobre os cerca de mil atos secretos do Senado nos últimos 14 anos, que teriam garantido a contratação de parentes de parlamentares para cargos comissionados.
Por enquanto impera o clima de que, para Sarney, a única publicidade que vale é a dos atos bons. Já a dos secretos continua um mistério.
Geraldo Magela/Ag. Senado
Foi do senador Osmar Dias (PDT) a frase que mais resumiu o clima que envolve a polêmica dos atos secretos do Senado. “Se é secreto, como é que eu vou saber do que se trata?”
Segundo ele, nenhum senador que não faça parte da Mesa Diretora tem como saber o teor das decisões. Faz sentido, afinal é a Mesa que realmente cuida desses processos.
Até que veio o discurso do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), e a mais sensacional das explicações:
“Eu não sei o que é ato secreto. Aqui, ninguém sabe o que é ato secreto.”
Enfim, ninguém sabe de nada, apesar do efeito dos atos para a contratação da parentada.
Sim, parece um filme de terror.
E, sim, é uma reprise.
Daniel Castellano/Gazeta do Povo
Plenário da Câmara de Curitiba: será complicado arrumar espaço para mais gente...O Senado deve votar hoje a PEC Paralela dos Vereadores, que promete reduzir em R$ 1,4 bilhão por ano os gastos com os legislativos municipais.
Em tese, tudo muito bonito. O problema é que a PEC Paralela é um desmembramento da PEC dos Vereadores, aquela que cria 7 mil novas vagas nas Câmaras.
O resultado é o seguinte: com uma mão o Congresso acena com a redução de despesas e com a outra enfia mais um monte de vereadores goela abaixo do cidadão.
Mas será que precisamos de mais vereadores?
Um levantamento publicado no domingo pela Gazeta do Povo mostra que 90% dos projetos apresentados pelos vereadores da cidade em 2008 foram irrelevantes. Na prática, eles são bons mesmo em conceder títulos honorários e dar nomes a ruas.
Criar mais vagas apra vereadores com certeza não vai mudar esse panorama. O mais provável é que ele fique ainda pior.
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