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Sexta-feira, 03/07/2009

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Quem faz o blog
30/06/2009 às 00:52


Marcos Xavier Vicente

Marcos Xavier Vicente /

Enviado por Marcos Xavier Vicente, 21/06/2009 às 00:43


arquivo pessoal

arquivo pessoal /
A rapaziada anda reclamando deste frio siberiano que desembarcou por estas plagas. Eu mesmo quase apelei esses dias. Ao ver a grama do quintal branca de manhã, cogitei seriamente sair de casa pra preencher mais um dia do meu expediente no planeta Terra enrolado em um cobertor. Desisti diante da possibilidade de o pessoal me confundir com um mendigo pelas ruas. Se bem que eu nunca vi morador de rua gordo... Segue o baile, gaiteiro!

A coisa realmente tá braba. Haja aguardente, digo, café quente pra fazer esse motor chamado organismo esquentar e funcionar a contento nessa temperatura de congelar lava vulcânica. Eu ainda tenho a vantagem de ter saído de fábrica com tecnologia de ponta, total flex. Rodo bem tanto com um, como com outro desses combustíveis. E o test drive definitivo foi no inverno argentino de 2007.

Em julho daquele ano, catei minha mochila com o objetivo de atravessar a Argentina até o Chile, parando nas principais cidades. Antes, mandei um e-mail ao grande Léo Aquino, lá de Belém do Pará, pedindo umas dicas do trajeto, que ele havia percorrido um ano antes. Entre as orientações, estava a possibilidade de não conseguir atravessar a fronteira entre os dois países por conta das nevascas na Cordilheira dos Andes.

Dito e feito. Foi exatamente o que aconteceu depois de eu embarcar no ônibus em Mendoza pra Santiago (ô, boca, Léo!). Fui obrigado a voltar, forçado a continuar mais uns dias na companhia dos bons e baratos vinhos mendozinos. Sejamos justos: a vida é dura, mas tem lá seu sabor.

Mas não foi lá que bati os dentes de frio até quase precisar de uma dentadura. Numa noite de fazer pinguim se sentir um nordestino no Alasca, saí de Buenos Aires rumo à cidade de Rosário. E pra espantar um pouco a friagem do sereno portenho, eu e meu parceiro de viagem, Juanito González, um caboclo que pela parceria veste a camisa 10 da seleção espanhola, achamos melhor chegar atrasados à rodoviária. Assim, poderíamos nos esquentar um pouco correndo feitos loucos atrás do ônibus que havia partido minutos antes.

Era isso ou congelar a bunda no banco da rodoviária esperando o próximo ônibus que sabe deus quando chegaria - se é que chegaria. Conseguimos fazer o motorista parar no meio de uma avenida movimentada, entramos e seguimos estrada adentro rumo ao dia mais frio da Argentina em décadas.

Chegamos a Rosário na madrugada de 9 de julho, um dia histórico para a Argentina. Não porque nesta data os hermanos comemoram a independência - é o 7 de setembro deles. Mas porque aquele 9 de julho foi um pouco mais histórico do que os outros. Afinal, a neve resolveu aparecer para curtir o feriado.

Pra um brasileiro como eu, seria bacana ver os flocos caindo do céu - o que não ocorria em cidades como Buenos Aires desde 1918. Seria, se não fosse o pequeno detalhe de que naquela madrugada pra lá de gelada (quase menos oito graus Celcius na fuça) eu e o Juanito simplesmente não tínhamos onde dormir, pois a atendente do albergue não havia feito nossas reservas.

Na hora, minha raiva era tanta que queria bater na menina. Mas ela me dobrou com um sorriso sincero, o qual também nos transformou em amigos. Quando meu irmão esteve em Rosário ano passado, Romina, a pequena em questão, fez questão de mostrar a ele um desenho que deixei aos amigos rosarinos. Se algum dia alguém aí aparecer no Hostel Pichincha em Rosário, saiba que a charge tosca pendurada no mural da recepção é de minha autoria.

Pra tentar solucionar a questão, os caras do hostel começaram a ligar para outros lugares onde poderíamos dormir aquela noite. Mas nada de vagas. Nem em albergues, nem em hotéis. Por ser uma cidade universitária, muitos jovens de outras cidades argentinas vão a Rosário no 9 de julho pra se divertir em festas organizadas pelos estudantes. E quando já estávamos quase dormindo no sofá da recepção, nos avisaram que conseguiram vagas em um outro albergue. Porém só tinha uma cama de casal pros dois...

Eu e o Juan esbravejamos e exigimos uma cama pra cada. Ligaram de volta pro outro albergue e acertaram a situação. A disposição ficou comigo na cama de casal, o Juan com uma daquelas camas que dobram ao meio e que montaram bem no meio do quarto, dois irlandeses bêbados roncando feitos britadeiras nas outras camas e os fungos e bolores descansando em paz nas paredes, fechando o cenário ideal do que se convém chamar de muquifo. Diante de tal quadro, não tivemos opção. O jeito foi encarar o frio e achar um bar pra nos esquentarmos com um bom trago.

Entramos em um bar onde o público cantava músicas de ovação à seleção argentina. Era época da Copa América e por amor à minha carcaça gasta, achei prudente guardar bem lá no fundo do bolso interno da jaqueta meu passaporte brasileiro.

Quando fomos ao balcão pedir as bebidas, sentou-se ao nosso lado uma menina sozinha. Com a desaprovação do Juanito, que é um cara mais envergonhado do que freira em cinema pornô, puxei papo com ela.

Conversamos uns minutos e a apresentei ao Juan. Dali por diante, a atenção dela mudou completamente. Sei não, mas acho que o castelhano do Juanito, que é um legítimo hispano-espanhol, era muito melhor do que o meu. Ficamos ali mais um tempo e antes de ir embora a moça nos convidou para jantarmos com ela e as amigas na noite seguinte. Aquecidos pela bebida e pelo convite, retornamos ao muquifo para dormir.

No outro dia, já instalados no albergue que deveríamos ficar, fomos até a casa da moça. Comemos as legítimas empanadas crioulas feitas por ela, acompanhadas por um bom vinho e saímos para a noite. Ela e o Juanito com o meio-campo já entrosado, prontos pra vestirem a camisa, o calção e o meião do jogo da sedução. Eu, no banco de reservas, já que as duas amigas em questão tinham seus respectivos titulares escalados, que apareceram logo depois no bar. Assim, resolvi seguir sozinho pela fria, mas agradável noite de Rosário.

E enquanto o Juanito se esquentava de uma forma, digamos, mais aconchegante, eu chegava a pé ao albergue bem na hora do café da manhã. Só me restou tomar uma xícara bem grande e quente de café preto. O frio eu já tinha espantado. A briga agora era com a ressaca.

Enviado por Marcos Xavier Vicente, 03/06/2009 às 16:14


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Para o meu próprio bem-estar, decidi voltar a escrever no Populares. Dobrei o lençol da preguiça e joguei lá no fundo da gaveta. E espero que lá fique por um bom tempo. Do contrário, corro sérios riscos, já que havia mais gente me cobrando, praticamente ameaçando minha integridade física caso eu não voltasse, do que aqueles formigueiros de pessoas que a gente vê nas fotos dos garimpos de Serra Pelada.

Tudo bem, não era tanta gente assim. Na verdade era bem menos. Era a meia dúzia de sempre. Aquela rapaziada jóia, só camisa 10, que nunca desiste da gente, manja?

Mas tudo gente de altíssima periculosidade. Vide Bárbara Zanetti Papov, a última que me pôs contra a parede cobrando um novo post. Barbarela, se você não pegar uma gripe por esses dias (e se agasalhe bem, porque o frio veio que veio), leia esse texto, óquei?

Deixemos a partida preliminar e adentremos à cancha com o time principal. Do goleiro ao centroavante, vamos ao que interessa.

A pelota dessa história rolou anteontem, quando entrei no ônibus para ir embora para casa. Há dias tentava encontrar um assunto para pôr o bom e velho Populares na ativa novamente. Sentei lá no fundão e comecei a matutar.

Pensei em fazer um texto sobre esse frio siberiano que desembarcou por essas plagas. Pensei em escrever sobre a minha grande capacidade de esquecer e perder objetos - disso ainda vai sair coisa boa! Ia tentando achar um bom gancho para cada ideia, quando me caiu no colo esse relato que conto agora.

Já havia desistido de achar um tema e ia abrindo o jornal que surrupiei na redação pra ler no trajeto até em casa (pronto, revelado quem desaparece com alguns exemplares do arquivo de periódicos), quando se sentou bem à minha frente um casal de namorados. Brigados, ressalte-se.

Ambos jovens, 22, 23 anos no máximo. Ele estilo skatista: boné na cabeça, blusa com gorro, jaqueta jeans. Ela mais formal: casaco de veludo preto, lenço no pescoço e cabelos pretos - muitos bonitos, por sinal - amarrados para trás.

Percebi que ela estava com os olhos vermelhos e inchados. Provavelmente tinha chorado pouco antes de entrar no ônibus. Estavam os dois sem jeito, como se há dias não se vissem depois de uma briga. Me concentrei na leitura, mas como estava muito próximo, fiquei sem opção: não tive como não ouvir a conversa.

Trocaram umas palavras ainda mais sem jeito. Os dois de cabeça baixa, sem se olharem. Ele parecia pedir desculpas de algo. Ela ouvia, olhando sem ver o movimento pela janela.

Foi um período assim, até que ela não aguentou e começou a chorar. Disse que realmente estava magoada, mas que também sentia falta dele. Deu outra repreendida nele, que, olhando para ela, parecia assimilar muito bem o recado. Selaram as pazes com um beijo, seguido por alguns sorrisos.

Desci do ônibus um pouco depois. E quando liguei meu aparelho de som para ir ouvindo música nas duas quadras até minha casa, Aretha Franklin cantava:

“I run for the bus, dear
While riding I think of us, dear
I say a little prayer for You
At work I just take time
And all throug my coffee break-time
I say a little prayer for You” *

Era a crônica pronta. Ou vai me dizer que, como no trecho aí acima, a menina não deixou de pensar um minuto sequer no cara, sem conseguir se concentrar no trabalho, só esperando revê-lo. Como na música, a prece dela foi atendida.


* Da canção I say a little prayer, do álbum Aretha Now (1968), da cantora Aretha Franklin.

Enviado por Marcos Xavier Vicente, 06/04/2009 às 14:19

Acordou inquieto aquele domingo. Estava eufórico. Era chegada a hora. Depois de tanta relutância da mulher, ela concordara em deixá-lo levar o filho ao estádio. Aos três anos de idade, o guri conheceria toda a emoção de um campo de futebol. Dali por diante, seriam parceiros de arquibancada a cada jogo.

Antes do almoço, já botou a camisa e o boné do time no guri. Na hora de partirem, deu uma bandeirinha pra ele segurar no caminho. Lá estavam os dois, devidamente paramentados para a ocasião.

Passaram antes no bar perto do estádio para o pai encontrar os amigos. Ele não bebeu nada. A rapaziada estranhou, fez cara feia. Explicou que havia feito um acordo com a mulher. Ela o fez prometer que se levasse o guri ao jogo não botaria uma gota de álcool na boca. Como era um sujeito de palavra, fez companhia ao filho na Coca-Cola. A dele com bastante gelo e limão, pra dar um ar de drinque e ludibriar os amigos e o fígado. A do menino, na garrafa, de canudinho. Tomaram o refrigerante e foram para o estádio. O pai com os bolsos forrados de balas e doces pra comerem juntos no jogo.

Sentaram-se na arquibancada exatamente no meio do campo, de onde o pai mais gostava de acompanhar as partidas. O guri numa excitação total. Pegava o papel picado da torcida e jogava para cima. Ali podia fazer bagunça à vontade. Ninguém iria reprimi-lo.

Na hora que o juiz apitou, o pai o sentou no colo e disse pra ficar quietinho, que prestasse atenção no jogo. Não via a hora de sair logo um gol para o filho extravasar toda a alegria que só a bola na rede a favor do nosso time pode proporcionar. Comprou um pacote de amendoim torrado e deixou o menino com os doces. E esperaram. Ou melhor: torceram.

Mas a sorte soprava para o outro lado. E logo aos 15 minutos do primeiro tempo, gol do adversário. Mais 15 minutos, outro gol. Virada pro intervalo: dois a zero e o guri perguntando:

- Que horas nosso time vai fazer gol, pai? Por que a gente não faz gol?

Aquilo doeu na alma. Começou a temer pela escolha que o filho faria. Tinha um conhecido no escritório cujo filho acabou torcedor da equipe adversária porque na primeira partida que fora assistir, ainda criança, como seu filho, o time levou uma goleada de quatro a zero. Não, aquilo não podia acontecer com ele. A alegria de levar o filho à primeira partida começava a se transformar em apreensão.

O técnico fizera algumas mudanças para o segundo tempo. O time voltou mais ofensivo para tentar reverter o placar. O problema é que com isso abriu-se mais espaço para o adversário. Foi o suficiente para mais três gols. Era de goleada. Um terror!

Bandeiras recolhidas, tambores silenciados e cabeças baixas na saída do estádio. Todos com nó na garganta. Ele e o guri ali, como se largados em um canto do estádio, sentados na arquibancada, tristes. O pai completamente amuado, temendo pelo pior: que o menino seguisse o exemplo do filho do colega de trabalho, cujo trauma da primeira partida o levou a torcer pelo adversário.

Neste instante, com o pai completamente inconsolável, mãos na cabeça, o guri o abraçou forte, quase sufocando seu pescoço e gritou alto o nome do time deles, fazendo eco no estádio vazio. O placar já não importava mais. A partida estava vencida.

Enviado por Marcos Xavier Vicente, 30/03/2009 às 01:45


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Chegou da escola decidido. Largou a mochila no sofá da sala e foi direto à cozinha. De hoje não passaria. Precisava ter uma conversa muito franca com ela.

- Mãe, preciso falar com a senhora! – disse com a voz empostada. Se é que um guri de 7 anos consegue ter a voz empostada...

A mãe, assustada, largou as panelas no fogão e se sentou com o filho. Ele nunca havia falado naquele tom.

Pensou mil coisas. “Valha-me, Deus, será que ele está sendo zombado pelos amiguinhos porque tem alguma dificuldade de aprendizado? Ou será que ele está com medo de ir pra escola? Vai que brigou com algum coleguinha de turma...”, passava pela cabeça aflita da mulher.

- Que foi, meu filho?

- Mãe, a partir de hoje não vou mais tomar banho!

Era pior do que pensara. Pois menino nessa idade quando põe na caixola de não querer tomar banho não tem quem segure. E ela sabia que tal dia chegaria mais cedo ou mais tarde. Pois todo menino passa por essa fase na vida. Tudo bem que alguns a estendem um pouco mais, como aquele primo que vive até hoje às custas da tia Madalena e que aos 35 anos ainda não conseguiu um lugar no mercado de trabalho. Mas não vem ao caso.

A questão era que o tão aguardado dia do confronto da higiene pessoal havia chegado. Sabia que dali por diante não seria nada, nada fácil pôr o guri debaixo do chuveiro.

- Como não, meu filho? Você tem que tomar banho...

- Não, mãe, não tenho.

- Por que não tem?

- Porque sou limpo. E se sou limpo, não preciso tomar banho. Eu não me sujo. Por isso não preciso tomar banho. Banho é pra quem é sujo – disse firme, com os pés que não alcançavam o chão balançando na cadeira.

Uma coisa ela tinha que admitir: o pequeno sabia argumentar. “Vai dar um bom advogado”, pensou.

A primeira ideia foi ralhar com o menino. Dizer que tinha sim que tomar banho. Que banho era para ser tomado todo dia, no calor ou no frio. Com que cara ela ficaria com o filho indo sujo para a escola, para o clube, na casa dos colegas...

Quando ia começar o sermão, mudou de ideia. Achou que para conscientizá-lo o melhor seria a própria experiência. A intuição de mãe lhe falava mais alto.

- Pois muito bem, meu filho. Você é que sabe...

O menino estranhou não levar nem uma bronca.

- Mas com uma condição... – disse ela - Você tem que me garantir que não vai mesmo se sujar.

- Combinado, mãe! Toca aqui.

Selaram o acordo.

No outro dia acordou, tentou pentear o cabelo, mas sem tomar banho não tinha como. Vestiu o uniforme e foi pra escola com a aparência de que um gato com fortes pesadelos e garras afiadas havia dormido em sua cabeça. Virou motivo de chacota na escola.

No outro dia, a mesma coisa. Com a diferença de que o fudum começava a transparecer. No terceiro, já havia tomado conta dele. No quarto, ninguém mais queria ficar por perto. Nem pro futebol do recreio era convidado – logo ele, o craque da escola. E não podia mesmo. Futebol suja. E prometera à mãe que não se sujaria.

No quinto dia fraquejou. Ao perceber que nem o cachorro, sempre tão fiel, queria papo com ele, desistiu. Vencido, pegou a toalha e foi para o banho.

A mãe gritou da porta do banheiro, com um sorriso no rosto:

- E lave bem atrás da orelha!

Naquele instante, ela teve certeza de que o filho não seria apenas um advogado. Seria um advogado limpo. Intuição de mãe!

Enviado por Marcos Xavier Vicente, 27/03/2009 às 16:23

Ela: - O que você tem, anda estranho?

Ele: - Não tenho nada...

- Tem sim. Tá quieto, não conversa...

- Tá tudo bem...

- Tá com algum problema de saúde?

- Não...

- No trabalho?

- Não...

- Em casa?

- Também não...

- Já sei, o sapato tá apertado, pegando aquele calo chato. Acertei? (risos)

- Não, não tô com calo não. E meus sapatos até que são bem folgados... (risos tímidos, cabisbaixos)

- Se não tem calo, por que tá quieto?

- Nada não, só umas pequenas frustrações. Já dou um drible nelas. Não se preocupe. Tudo vai ficar bem.

- Não quero te ver triste assim...

- Tá bom. Já tô melhor... (risos tímidos novamente).

- Isso, quero te ver assim: sorrindo!

No outro dia se reencontraram. Ele com o humor bem melhor. Finalmente havia tomado vergonha na cara e passado em um podólogo. Como doía aquele calo!

Enviado por Marcos Xavier Vicente, 26/03/2009 às 00:27


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O caboclo pra ser repórter de tevê tem que ter elegância. Cada vez que vou a uma coletiva de imprensa vejo como é complicado trabalhar em televisão. Enquanto eu e meus colegas de jornalismo impresso chegamos de calça jeans, tênis e camiseta, muitos com a barba por fazer, os repórteres de tevê sempre estão com o terno impecavelmente alinhado, a gravata nem um milímetro fora do lugar, sapatos lustrados e o rosto mais liso do que bolso de pobre com o nome no SPC. Isso quando não estão maquiados – dizem, não sei, que o brilho do rosto atrapalha o não sei o que da imagem na câmera. Questiúnculas técnicas.

E dia de calor? Aquele sol de rachar mamona na moleira e os caras no maior profissionalismo, sem pingar uma gota de suor. Dentro do terno, uns 200 graus, a sensação de estar vestido numa embalagem a vácuo e os caras ali, firmes, sem uma mancha de suor na roupa.

Mas, acredito eu, que a maior prova que o repórter de tevê dá de elegância é quando não está trabalhando. Porque onde ele vai é reconhecido. No restaurante, no shopping, na praça, no mercado, no estádio, no cinema, na p... (é, lá mesmo) sempre tem um que cutuca o sujeito do lado e larga “aquele ali não é o cara da tevê...” E lá vem o chato puxar assunto ou fazer aquele comentário inédito: “nossa, você é tão diferente fora da televisão”. Criatividade é uma coisa incrível...

Nesse ponto, trabalhar em veículo impresso é vantagem. Ninguém nunca vai saber como você é – a menos que você tenha um blog e sua foto com a cara amassada apareça nele. Mas, se ninguém lê teu blog, como é o caso, também não faz diferença.

Lembro de certa vez, quando ainda trabalhava com futebol, fui dar uma olhada nos jornais na banca. Entre as páginas expostas, havia uma matéria minha. Um dos populares do meu lado não gostou muito do que leu sobre o time dele. Virou pra mim e sentenciou: “esses jornalistas são ‘soda’, não sabem nada do que falam”.

Temendo voltar pra casa com um olho roxo, pois com torcedor contrariado e mulher com TPM não se mexe, achei melhor não discordar. E, muito mais prudente, mantive minha identidade preservada.

Já se naquela oportunidade fosse eu um repórter de tevê - o que só seria possível se o grande doutor Ivo Pitanguy tivesse um bisturi de condão, pois com essa carinha não passo nem da portaria da emissora – teria que explicar por que escrevi aquilo, que respeitava a opinião dele, mesmo sendo contrária à minha, que há várias formas de se interpretar um texto e blablabla.

Portanto, fica a dica para você, jovem que pretende se alistar nas trincheiras do jornalismo televisivo: prepare-se para o embate. Não é só porque suas tias acharam lindo seu discurso na formatura da catequese que você tem postura pra ler o telepronter na bancada do telejornal. Tem que ter talento, uma boa dose de elegância e, se possível, um bom cirurgião pra retirar suas glândulas sudoríparas. Afinal, não é fácil ser Willian Bonner. Tá gravando? Boa noite! (Sobem os créditos.)

* Colaborou nesse texto o grande Serginho Tavares, que de ruim tem apenas o péssimo gosto de ser atleticano.

Enviado por Marcos Xavier Vicente, 19/03/2009 às 19:51


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Das tantas lições que não aprendi na vida, está a regra básica para qualquer usuário de óculos de sempre (sempre, sempre, sempre, vamos ressaltar e colocar uma exclamação nisso!) ter um par de óculos a mais na gaveta para casos de emergência. Não aprendi e me... Deixa a rima pra lá.

Nesses 25 anos em que a armação faz tanta parte do meu rosto quanto meus olhos, meu nariz e minha boca, jamais tive um par de óculos extra. Mesmo sabendo que um dia iria precisar, pois quebrar armação de óculos é que nem frango na carreira do goleiro: um dia vai acontecer. Se bem que joguei várias e várias peladas no gol de óculos e nunca os quebrei. Já frangos... Se eu estivesse sem óculos seriam muitos mais.

E mês passado o dia chegou. Numa sexta-feira, ao sair do jornal, percebi que uma lente estava mais para cima do que a outra no meu rosto. Tirei os óculos para ver o que era e pronto. Em poucos segundos percebi que era chegado o dia, que o destino, maroto como sempre, havia cruzado meu caminho mais uma vez. Lá estava eu, no meio da rua, já de noite, sem ter para onde recorrer, com uma metade dos óculos em cada mão.

Mas dificuldades não intimidam os fortes. Quando a vida te impõe intempéries, como ter os óculos divididos em dois com seis graus de astigmatismo e três de miopia, não tem escapatória. O jeito é vestir a camisa 10 e entrar de chuteira trava alta no gramado da improvisação. Segue o jogo!

Para chegar em casa, consegui prender cada uma das alças nas orelhas. O problema é que com a armação partida ao meio as lentes ficavam soltas no meu rosto. Nada que meus dedos indicador e fura-bolo da mão esquerda não solucionassem, pressionando as lentes na minha cara. O problema só foi ir de pé no ônibus nessa situação. Meu braço direito deve ter aumentado uns 10 centímetros de muque ao impedir sozinho que este pequenino corpanzil se estatelasse no chão.

Instigado pelo episódio do ônibus, peguei gosto pelo desafio aquele dia. Meti um remendo de durex na armação e assim, despojadamente, numa relax, numa tranquila, numa boa, fui beber uma cervejinha com a rapaziada do mundo online aqui da redação. Só não esperava a pressão da rapaziada, que parecia a claque da Praça é Nossa ao me ver com aquele trambolho na cara. Por pouco não chamei uma ambulância do Siate para socorrer o Dudu. Tenho certeza de que ele estava tendo um princípio de enfarte de tanto rir da minha cara.

Sábado de manhã, ainda com os risos da moçada ecoando nos meus ouvidos, levei os óculos para uma dessas versões de martelinhos de ouro das armações. Deixei os óculos no conserto às 9. Eles ficariam prontos ao meio-dia. O jeito foi esperar.

Fiquei ali pela Boca Maldita parado, brincando de estátua, de medo de tropeçar sem os meus fiéis escudeiros nos olhos, enquanto me decidia se ia tomar um café. Estava pronto para tomar cafezinhos suficientes para ficar acordado uma década enquanto esperava o reparo, quando fui abordado por um senhor. “Ô, Marcão, o que você tá fazendo perdido aqui?” Forcei, forcei, forcei os olhos, dei mais uma forçadinha, outra e não reconheci. “Não tá me reconhecendo, rapaz?”. Confessei, “ desculpa, mas não”. Era o Singer, velho amigo do meu pai e habitué da Boca. Expliquei a situação e ele decidiu fazer as vezes de guia, me conduzindo pelo braço até o cafezinho.

Apesar dos 25 contos que morri no conserto, aquela manhã de bate-papo com o Singer na Boca foi agradável. E, claro, ele me recomendou: "Guri, faça como eu, tenha um óculos reserva em casa". Agradeci o conselho, mas ainda não comprei óculos novos e sigo com o velho que está querendo fraquejar novamente. Pra piorar, ainda perdi a receita do oftalmologista para mandar fazê-los.

Mas se não aprendi essa sábia lição dos óculos reservas, sem dúvida reforcei a velha crença de que com cara-de-pau e durex se vai longe na vida. Abram o olho!

Enviado por Marcos Xavier Vicente, 16/03/2009 às 12:10

Este texto foi feito sob encomenda para a reportagem Para não espantar "pretê", da Adriana Czelusniak, publicada no último domingo (15/03), no Viver Bem.



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Quando a deixou, o namorado disse que ela era uma mulher incrível. Mas que a vaidade havia estragado o relacionamento. Não aguentava mais tanto zelo com a aparência. Dela consigo mesma - pra que tantos cremes, tantas roupas, tantos sapatos, tantos perfumes. E dela com ele - corte esse cabelo, faça essa barba, compre a camisa desta marca, use este sapato.

Quando o deixou, a namorada disse que ele era um cara incrível. Mas que o desleixo havia estragado o relacionamento. Não aguentava mais tanto relaxo com a aparência. Dele consigo mesmo – não quero cortar o cabelo, vou deixar a barba mais uns dias, adoro essa camiseta velha e desbotada, meu velho All Star ainda aguenta um bom tempo. E dele com ela – creme do quê?, veste qualquer roupa e vamos, não sei como você consegue usar esse salto-alto, não precisa passar perfume pra ir até ali.

Após anos de namoro, estavam solteiros.

Quem os apresentou foi um casal de amigos em comum. Marcaram de sair todos juntos.

Disseram a ela para ir com uma roupa simples, que seria uma coisa descontraída. Para ele, disseram para se apresentar melhor, afinal isso sempre conta pontos.

Ela foi de vestidão florido e sandálias. Ele se barbeou, comprou camisa nova e calçou sapatos. Se a primeira impressão é a que fica, gostaram-se de cara. “Uma moça sem frescuras”, pensou ele. “Um cara charmoso”, pensou ela.

O casal de amigos se despediu. Ficaram os dois na mesa. Conversaram longamente e descobriram afinidades que não tinham com os respectivos ex. Marcaram de se encontrar novamente e no outro dia já estavam de mãos dadas pelas ruas. Ele de camiseta, bermuda e tênis. Ela de vestido tubo preto, salto-alto e maquiagem.

Enviado por Marcos Xavier Vicente, 13/03/2009 às 03:14


Divulgação/TV Globo

Divulgação/TV Globo /
- Marquito, por que tiraram teu blog do ar?

- Não é que tiraram. É que quando o blog fica muito tempo sem atualizar ele automaticamente sai da lista na página dos blogs. Só isso.

- Então é você o desleixado. Não vai mais atualizar, não?

- Vou, uma hora vou...

- Quando?

- Não sei...

- Como não sabe? Blog tem que atualizar a toda hora, senão ninguém acessa.

- É, tô sabendo.

- Então, quando?

- Não sei, caramba...

- Tem que atualizar!

- Eu sei...

- Então trate de escrever!

- E você pensa que é moleza achar assunto? Não é fácil achar sobre o que escrever, não...

- Pare de enrolação. Por que você não escreve... hum... sei lá... sobre a falta de assunto, sobre isso de que é difícil achar sobre o que escrever pros posts.

- Mas isso todo cronista já fez. E, obviamente, infinitamente melhor do que eu.

- Tem razão... Então por que você não publica esse nosso bate-papo aqui no bar!

- Mas essa conversa tá meio chata...

- Ah, bota umas coisas engraçadas, inventa umas doideiras. Sei lá... Fala daquele cartaz ali da Juliana Paes com a cerveja na mão. Mulher bonita sempre dá ibope. Já sei até a sacada. Fala como é bom estar na companhia de uma mulher bonita. Diz que sempre, toda semana, sai pra beber com um musa. Floreia bastante. Fala que é uma mulher sensacional...

- E no fim eu digo que a grande mulher em questão é a Juliana Paes. No caso, essa aqui, pendurada na parede, a moça que tá no cartaz...

- Isso!

- Sacada boa, tenho que admitir.

- Claro que é!

- É, vou escrever...

- Quando?

- Um dia....

(silêncio)

- Se eu escever, você acha que há possibilidade de ela ler?

- Depende.

- Do quê?

- Será que o blog vai tá no ar?

- É, preciso escrever mais. Vai que a Juliana Paes vira minha fã...

Este é um espaço público de debate de idéias. A Rede Paranaense de Comunicação (RPC) não se responsabiliza pelos artigos e comentários aqui colocados pelos autores e usuários do blog. O conteúdo das mensagens é de única e exclusiva responsabilidade de seus respectivos autores.
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