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Quarta-feira, 15/10/2008

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Quem faz o blog
24/09/2008 às 23:18


 / Essa fera está pronta para ir à padaria aqui perto de casa. Tudo por um pãozinho quentinho!Essa fera está pronta para ir à padaria aqui perto de casa. Tudo por um pãozinho quentinho!

Esse negócio de assalto à mão armada nas redondezas dos bancos têm deixado muita gente de cabelo em pé. No caso de quem tem, é claro. De quem tem cabelo e dinheiro, ressalte-se. Carecas pobres fora. Conforme bem mostraram os amigos João Natal Bertotti e Marcos Paulo de Maria, nada mais, nada menos do que um terço dos assaltos e roubos nas redondezas dos bancos no país tem sido cometidos nas ruas de Curitiba.

Bons tempos em que as pessoas guardavam seu rico dinheirinho no colchão. Essa preocupação mundana de ficar sob a mira de revólveres nem existia. Tempo que não volta. Assim como a inflação – não sou eu que garanto, é a equipe econômica do Lula que jura de pés juntinhos.

Mas tem gente que torce desesperadamente pra que o dragãozinho da inflação volte a cuspir fogo em chamas cadentes. Ao menos uma fagulhazinha. Isso desestimularia a ladroagem. Já pensou o trabalho? Roubar de manhã e de tarde o fruto da gatunagem suada de cada dia já não valer mais nada. Muito injusto.

Eu, por vias das dúvidas, ando me precavendo. Estou pesquisando o preço de coletes à prova de balas. Um zero quilômetro, modelo popular, sem opcionais, com tanque vazio e sem IPVA pago sai por, no mínimo, mil verdinhas. Ou a bagatela de aproximadamente mil e novescentos reais – ao menos enquanto o sono do dragãozinho da inflação perdurar (nana, nenê, que a Cuca vem pegar, papai foi pra roça, mamãe foi passear...). Um preço razoável, diante das vantagens. Vejamos.

Vou poder ir ao banco numa relax, numa tranqüila, numa boa sacar aquela bufunfa esperta que não tenho – quem foi o pilantra que fez barulho e acordou o dragão? Não faz mal. Com um coletão bala desses, ou, melhor, com um coletão à prova de bala desses, faço questão de incursionar por lugares perigosos.

Como a padaria aqui perto de casa, assaltada 32 vezes em apenas oito anos. Eu sempre gostei do pão de lá - quentinho e macio. O problema é que pra chegar à padaria a rapaziada aqui do bairro têm que usar de táticas de guerrilha. Tudo pra fugir dos meliantes, como diria aquele famoso repórter policial. Incluindo aí a camuflagem.

Tem um senhor que se finge de poste que é uma beleza. Fica ali, paradão, até se certificar que ninguém vai importuná-lo. Se não fosse a bigodeira que entrega que o caboclo realmente não é um poste, seria bem capaz de um vira-lata urinar nos pés dele. Isso se antes nenhum carro de ladrão bater nele em alta velocidade durante uma fuga. O que não é nada agradável após um dia estressante de expediente de assaltos (o duro não é assaltar, o duro é agüentar todo dono de padaria reclamando que além de ser assaltado à mão armada, ainda é assaltado pelo governo, que põe o preço do trigo lá nas alturas. Esse dragão é mesmo um grandississimo janota. Ou um grandississimo peralta, pra quem não tem um Aurélio - o dicionário, por favor - aí ao seu lado.

Só não vou aceitar piadinhas com o meu supercolete à prova de balas. Se a caixa da padaria vier com esse papinho de não tenho troco, posso dar uma bala, já vou logo reclamando pro gerente. Estão todos avisados! Se isso acontecer, saibam desde já, eu juro que cuspo fogo.

18/09/2008 às 12:44

* Publicado originalmente quinta-feira (18/09) na edição impressa da Gazeta do Povo.


José Aguiar

José Aguiar /

Confesso não gostar de falar ao telefone. Tenho verdadeira aversão. E por um desses dilemas da vida (e como essa danada tem dilemas), optei por uma profissão que me obriga a ficar boa parte do expediente pendurado na invenção de Graham Bell. E pago caro por isso.

Para render essas mal ditas letrinhas (eu disse mal ditas, não malditas – vamos ressaltar esse espacinho aí, moçada!) publicadas por este escriba de faixa branca no quimono, sou assediado diariamente por uma dor no ombro. Mais especificamente no esquerdo, onde acomodo o telefone enquanto faço anotações nos bloquinhos de papel para as entrevistas. E é ali, no meu ombro esquerdo, que a dor chora suas mágoas. Chora de soluçar. Chora de doer – e jogue para bem longe qualquer tipo de trocadilho.

Consta no RG da dita-cuja o nome Inflamação de Tendão. Mas o ortopedista – muito do meu chapa –, deixou essas formalidades de lado ao nos apresentar. Lascou o apelido da moçoila pra que pegássemos logo intimidade: “Tendinite, Marcos; Marcos, Tendinite”. Muito praz... digo, nenhum prazer! E é melhor mesmo nos pouparmos dessas frivolidades. Até porque minha relação com ela é bastante intensa, quase um namoro. Com a dona Tendinite no papel de a chata castradora do relacionamento. Óbvio!

Agora a imprensa – é sempre culpa dos jornalistas! – me presta um favor enorme ao informar que os fuxicos alheios podem estar sendo ouvidos por bisbilhoteiros de plantão. Tudo feito nessas engenhocas, os tais dos grampos telefônicos. E não é de qualquer bisbilhoteiro que estamos falando não, meu caro. Gente grande. Gente graúda. Gente que não come mel: mastiga abelha.

E eu que pensava que o único serviço telefônico prestado pela polícia brasileira fosse aquela famosa técnica de tirar cerume do ouvido da rapaziada das celas. Afinal, como é que alguém em uma sala escura pode escutar bem as gentis perguntas dos policiais e confessar com riqueza de detalhes o crime (se cometeu ou não, são outros quinhentos – não me venha com detalhes, oras, bolas) se não ouve direito?

Só sei que, se antes eu já não nutria muita paixão por uma conversinha ao telefone, agora, com o risco de ser ouvido por essa gente, é que falo menos ainda. E, se falo, redobro, triplico, quadruplico o cuidado.

Pois de mim, tenham certeza, eles não vão arrancar nada. Nada além do canto desse emplastro Sabiá que não pára de piar aqui no meu ombro esquerdo...

16/09/2008 às 11:50


 / Te cuida, macacada, porque a lei animal é mais severa!Te cuida, macacada, porque a lei animal é mais severa!

Essa macaquice de pedir habeas corpus pra chimpazé tem causado mal-estar não só no mundo jurídico. Tudo por conta do advogado que representa Megh e Debby, as filhotes de chipanzé que, sem nenhum trocadilho, estão com a macaca.

Criadas a pão-de-ló, as bichinhas não querem nem saber de voltar pra aquele mundão inóspito das matas africanas. Por isso, deram uma de político malandro (estou em dúvida, isso é pleonasmo?) e lascaram na Justiça um habeas corpus pra continuar no aconchego do lar em um sítio em Ibiúna (SP).

Pra quem foi criado a leitinho achocolatado na mamadeira - e não me venha com marca barbante, tem que ser de Ovomaltine pra cima, estamos entendidos? - conforme me informa um conceituado periódico paulista, deixar essa mamata pra se pendurar em uma árvore lá pros rincões de Uganda pra comer frutos silvestres não é lá uma troca muito interessante mesmo. Se ao menos os ditos frutinhos fossem de plantações orgânicas, sem agrotóxicos e viessem em embalagem à vácuo, com prazo de validade ao fundo e o número do SAC pra ligar em caso de dúvida, ainda vá lá.

E antes que você aí esbraveje que esse negócio de tratar bicho como gente é um absurdo, peguemos o rumo dos fatos. Conforme muito bem argumentou o advogado das nossas amiguinhas símias (o cara é doutor, mermão!), os genes dos chimpanzés são 99,4% iguais aos dos seres humanos - aquela gostosa da sua vizinha incluída. E se nós temos direito a um habeas corpusinho matreiro pra sair da rotina de vez em quando, pela lógica, nossos amigos chimpanzés também. Ao menos enquanto pessoa humana de 99,4% - copyright do último termo em itálico a qualquer livro de auto-ajuda.

O problema é que esse negócio causou um reboliço no reino animal. Pois agora há uma nova luta de classes, que, inclusive, se mobiliza em sindicatos. A dos genes iguais, que querem porque querem os seus direitos garantidos por terem sangue nobre.

Os gatos vira-latas ou sem raça definida (a que nível chegou essa chatice do politicamente correto...) saíram na frente. Já impetraram seus agá-cês (os habeas corpus na intimidade) exigindo seu quinhão na herança do rei dos animais. Eles acreditam ter no mínino 80% de genes iguais aos dos leões. Logo, são da família real. Nada mais justo.

Por via das dúvidas, a Justiça determinou: o patrimônio mais valioso do reinado leonino, a juba, fica depositado em juízo até que se resolva a questiúncula.

Só sei que eu se fosse a Megh e a Debby me apegaria a um crucifixo com todas as forças e rezaria umas 50 novenas pra esse bendito habeas corpus sair logo de uma vez. Do contrário, o leão já mandou avisar: não vai sobrar nenhum genezinho das duas se pintarem lá pelas savanas africanas.

10/09/2008 às 01:06


Paulo Fehlauer / www.garapa.org

Paulo Fehlauer / www.garapa.org / Banda que toca todos os domingos na feira da Praça Kantuta, no bairro do Pari, em São Paulo: bolivianos legítimos. (foto gentilmente cedida pelo repórter fotográfico Paulo Fehlauer do site Garapa - www.garapa.org)<br />
Banda que toca todos os domingos na feira da Praça Kantuta, no bairro do Pari, em São Paulo: bolivianos legítimos. (foto gentilmente cedida pelo repórter fotográfico Paulo Fehlauer do site Garapa - www.garapa.org)

Nada tenho contra músicos de rua. Mas peguei uma certa ojeriza àqueles bolivianos que tocam na XV. Quando comecei a trabalhar como jornalista, ainda como estudante e atuando como revisor, passava todos os dias pelo calçadão. E naquele horário, justamente na-que-le horário, eles sempre tocavam Guantanamera – alguém aí pode me explicar por que todo boliviano que se apresenta ao ar livre no Brasil toca essa música, que na verdade é cubana?

Parecia uma coisa programada. Bastava ver aquele gordinho com o jornal embaixo do braço caminhando a passos largos pra não chegar atrasado ao trabalho pra começar a fanfarronice: Yo soy un hombre sincero/ De donde crece la palma/ Yo soy un hombre sinceeeeeeeeeeerooooooooo...

Assim foi por dois anos. Até hoje tenho minhas dúvidas se aquela flautinha de bambu não foi usada para fazer lavagem cerebral em mim. Pois bastava eu pegar o primeiro texto do dia para revisar e lá vinha o refrão na minha cabeça justamente no momento que eu mais precisava de concentração: Guantamera, guajira guantanamera, guantameeeeeeeeera, guajira guantanameeeeeeera.

E foi com esse trauma que topei o convite da amiga Ana Carolina Moreno de visitar a feira dos imigrantes bolivianos na Praça Kantuta, no bairro do Pari, na minha esticada a São Paulo para o casamento de um amigo há duas semanas atrás (esse mundo está mesmo perdido: o Jones casou!).

Capitaneados pela Carol, paulistana daquelas, ô, meu! - com o agravante de ser são-paulina doente -, eu, Ewandro Schenkel e Felipe Lessa formamos um power trio de peso (em todos os aspectos) na tour. O projeto inicial naquele domingo ensolarado era ir ao Masp. Como acordamos tarde – sabe como é, a festinha do casamento estava animada, o uísque era bom... -, demos com a cara na porta. Mas, também, não sei por que fechar tão cedo a bilheteria. Pô, 17 horas é madrugada...

Ainda com os olhos grudados de remela (como é difícil acordar cedo...), decidimos ligar pra Carol pra ver se ela tinha um plano B pra aquele resto de domingão. Não queríamos voltar ao apartamento onde estávamos (obrigado Gina, obrigado Teco!) e pegar a xepa do Faustão. Topamos na hora a proposta da Kantuta.

Da estação Armênia de metrô à Praça Kantuta, víamos um ou outro sujeito com aquele trejeito latino-americano típico. Em bom português, com cara de índio mesmo. Chegando lá, a coisa se inverteu. Nós éramos os estranhos no ninho.

Eu, com essa pinta de Jaime Palilo, até me safei de parecer gringo. Já o Ewandro, que se for pros EUA vai preso por ser cover da moçada do Al Qaeda, e o Lessa, que só não é hooligan porque é “pé-vermeio” de Londrina e mais tranqüilo do que baiano com sono, não eram propriamente o perfil de quem toma chá de coca e cria lhamas no quintal de casa. Mas nada que levasse a rapaziada parceira do Evo Morales a nos molestar. Pelo contrário.

Já de cara senti o climão soy loco por ti América. A pedido da Carol, experimentei o tal do zumo de maní – suco de amendoim, ou “amennnduínnn”, como a Carol largou em bom paulistanês. A barraca parecia a do Chaves no episódio em que ele vende refrescos na vila. Até o panelão onde estava o suco e a concha para encher os copos eram iguais.

O Ewandro e o Lessa gostaram tanto da iguaria, que pelas caras pareciam estar levando uma facada nas entranhas quando provaram. Já eu não quis ser descortês. Para retribuir o preço camarada que a turminha de La Paz nos faz no gás natural, mandei ver dois goles bem generosos, daqueles de só molhar o beiço. Quando ia para o terceiro, estranhamente tropecei no ar e todo o conteúdo do deliciosíssimo (reparem que não pus o adjetivo superlativo entre aspas) zumo de maní foi para o bueiro. Coisa desse malandrinho intepestivo chamado Sobrenatural de Almeida – copyright ao finado Nelson Rodrigues.

Pois muito bem. Passeamos pela feira. O Lessinha adquiriu algumas camisas de clubes bolivianos totalmente originais – ao menos naqueles quarteirões do Pari, onde são produzidas por bolivianos em confecções de coreanos. Eu comi uma empanada. A Carol provou ser corajosa ao degustar um creme de leite com frutas cuja procedência era no mínimo duvidosa – se vocês vissem a bacia de plástico onde o doce era feito ao ar livre entenderiam do que estou falando. O Ewandrinos ficou vendo uns malucos assistirem a um discurso do Evito em um DVD que só não era pirata porque não tinha perna-de-pau e nem tapa-olho. E todos nós rimos de um folder que anunciava apresentação das gloriosas bandas Amar Azul, Internacional Carro Show e Khiswara en el gimnásio de la Portuguesa. A precios populares, ressalta-se.

E o mais bacana de tudo é que em nenhum momento a banda que estava lá – com muitos instrumentos de sopro e tambores – tocou Guantanamera. Só músicas legitimamente andinas. Afinal, mesmo morando no Brasil os caras da Kantuta sabem muito bem quem são: bolivianos da gema. Não cubanos de araque.

02/09/2008 às 19:25


 / Chocolate: há 3,5 mil anos fazendo bem ao coraçãoChocolate: há 3,5 mil anos fazendo bem ao coração
Agora os pesquisadores (sempre eles!) me vêm com essa de que chocolate faz bem para o coração. Pelo que os cientistas alemães descobriram, poucos gramas (6, mais especificamente) de chocolate por dia seriam suficientes para reduzir a pressão sangüínea.

Mas não pode ser qualquer chocolate. Não saia por aí se empaturrando de Chokito e Suflair porque não vai ter efeito. Tem que ser chocolate amargo. Como já dizia minha avó (uma visionária, sem dúvida), remédio bom tem que ser amargo! Mesmo que a dose seja achocolatada.

Bom mesmo seria se isso de comer chocolate amargo solucionasse de vez os problemas cardíacos. Seria uma maravilha! Já pensou?

Assim que você sentisse os sintomas de que sua pressão decolou rumo à estratosfera no primeiro ônibus espacial da Nasa que passasse, bastaria sacar aquele tabletinho do bolso. Tudo resolvido. Sem broncas do médico e nem da patroa pelo seu estilo de vida, digamos, não muito recomendado para pessoas que almejam chegar aos 60 anos.

Enquanto não chegamos a esse nível, melhor você, camisa dez do sedentarismo, levar a sério tudo aquilo que te dizem: diminua o sal, faça mais exercícios físicos, beba menos, pare de fumar... (a quantidade de pontos no final da sentença vai de acordo com o grau de coisas erradas que você faz com sua saúde. No meu caso, vamos preencher um pouco mais este espaço: ...........................................................................)

Mas o que eu vim aqui dizer é que na verdade esses cientistas alemães descobriram receita de ferver água: o óbvio. Que chocolate faz bem para o coração, todo mundo sabe. E não é de hoje – no mínimo, há três mil e quinhentos anos. Desde quando aquele simpático e apaixonado índio maia (ou talvez azteca, ou talvez inca) resolveu surpreender sua pequena com aquela iguaria extraída do cacau.

De lá para cá, não houve coração nesse mundão que não melhorasse ao dar ou receber uma simples caixa de bombom. Desde que não seja de chocolate amargo, obviamente.

27/08/2008 às 13:28


 / Capitão Nascimento: ídolo da juventude holandesa.Capitão Nascimento: ídolo da juventude holandesa.
No nosso penúltimo dia em Amsterdam, eu e meu amigo Cristiano pegamos um dos últimos trens elétricos da noite para voltarmos ao albergue. Sentamos lá no fundo, acreditando que seria o lugar ideal pra alguns minutos de cochilo após tanto batermos perna pela cidade. Bastava um de nós ficar semiacordado o suficiente para prestar atenção naqueles nomes estranhos de paradas que surgiam no letreiro do vagão. Assim que surgisse algum que começasse com z, imediatamente um de nós conferiria se aquele emaranhado de letras batia com o outro emaranhado de letras que estava escrito no mapa que nos deram no albergue.

E era bom mesmo que prestássemos muita atenção no letreiro. Ou alguém aí acredita que assim que o alto-falante do trem anunciasse Zeeburgerdijk nós compreenderíamos perfeitamente e despertaríamos numa relax, numa tranqüila, numa boa para descer do trem?

Compreender o tal do dutch é coisa pra gente com poderes sobrenaturais – sempre achei minha amiga Tineke Bronkhorst meio mutante... Sei não, mas tenho cá minhas dúvidas se a televisão holandesa teria coragem de implantar um quadro como o Soletrando do Caldeirão do Huck. Seria humilhação demais para aquelas jovens cabecinhas loiras...

E enquanto esperávamos a palavra impronunciável com z surgir, eis que se senta à nossa frente um guri negro, por volta de 18 anos, que nos dá uma aula prática de como preparar um drink muito apreciado na Holanda, o nederlands grote pijp, ou, em bom português “dos mano” lá da vila, tubão holandês mesmo.

A diferença está no preparo e na forma de servir. Sai a cachaça incha-caixão e entra uísque Red Label - tubão de primeiro mundo é outra nível, malandro! Deixe a garrafa pet dois litros de lado e sirva em copo plástico mesmo.

Na seqüência, o processo é o mesmo. Basta dar aquela bronzeada engana-trouxa no drink com uma coca-colazinha ou uma pepsizinha mesmo, que foi o caso (por sinal, Coca-Cola e Pepsi também se escrevem Coca-Cola e Pepsi em holandês – há mais coincidências entre a língua de Camões e a de Anne Frank do que julga nossa vã filosofia...) E como bem demonstrou nosso barman de trem, recomenda-se degustar o nederlands grote pijp ao estilo cowboy – sem gelo, ou, se preferir, ijs, como bem diria Johan Cruyff, sem o menor receio de errar no sotaque.

A única indelicadeza do simpático, porém mal-encarado mano holandês durante a aula foi jogar no chão a garrafa de refrigerante. O que não agradou em nada a cobradora do trem e os outros passageiros. Lá de sua cabine – e que cabine, meu amigo, parecia que a mulher era do Jornada nas Estrelas e conduzia a Enterprise – a cobradora anunciou que não se deve jogar lixo no interior do trem. Em holandês, é óbvio. Como eu estava assistindo tudo aquilo em poltrona de gala, não precisei de legendas. E o nosso amigo barman nem aí, só molhando o beiço em seu happy hour particular.

Até que um cara sentado atrás dele levantou enfezado. Era um sujeito branco e alto que em um holandês tão cortês quanto o mugido de uma morsa mandou o rapaz catar a garrafa do chão. Nosso intrépido bebum dos trilhos não curtiu muito ser tirado de seu transe etílico. Mesmo assim foi educado. Mandou sinceras lembranças à mãe de seu interlocutor, perguntando como ia a osteoporose dela e se ela continuava a fazer aqueles deliciosos bolinhos de chuva e tudo o mais. O que, não sei por quê, também não agradou nosso amigo branquelo.

Eis que quando o catiripapo ia comer solto nos trilhos de Amsterdam, a bendita garrafinha de Pepsi vai justamente para o meu lado. Os dois param de trocar gentilezas e passam a acompanhar com os olhos a garrafa, que mansamente pára nos meus pés. Eu me abaixo e, no meu inglês de fazer a rainha Elizabeth se sentir analfabeta, digo que eles não precisavam brigar, que pegaria a garrafa e jogaria no lixo. É a diplomacia brasileira cumprindo seu papel no cenário internacional de conflitos, pensei eu ingenuamente.

Pois assim que pego a garrafa, os dois me olham com carinhas nada angelicais. O branco desce logo na estação seguinte. Não sem antes me dizer algumas palavrinhas cordiais, que para o português poderiam ser mais ou menos traduzidas assim: “*##*@¨*##*@¨*##*@¨*#.”


Já o rapaz negro se vira pra mim e diz em inglês

- Ei, cara, qualé a tua? Tu não devia ter catado a garrafa do chão, não. Esse cara não é da polícia nem nada pra falar comigo desse jeito... Cara, tu não devia...

Pedi desculpa e seguimos viagem. Mas o bebum estava mesmo a fim de aprontar. Ligou o som do celular no último, no que levou outra bronca da moça da Enterprise.

E agora foi a vez de uma senhora já de idade interceder. Muito educadamente (de verdade) ela o convenceu a baixar o volume. E ainda quis puxar papo conosco. Perguntou de onde éramos.

Bastou dizer que era do Brasil que a coisa mudou. Na hora o bebum levantou e disse em bom tom “Caramba, vocês são do Brasil! Não acredito!” A cara carrancuda deu lugar àquele sorrisão maroto.

Aí ele começou a falar sem parar. Disse que era maluco para conhecer o Brasil, que queria ir numa favela. E de repente, do nada, começou a fazer com as mãos uma imitação de metralhadora, dando tiros pela boca. “Cara, eu vi o filme, Tropa de Elite, Capitão Nascimento... Ta-ta-ta-ta-ta.” Quando descemos, ele ainda nos abraçou e disse que se precisássemos de algo era só procurar por ele, pois morava por ali.

Salvo pelo Capitão Nascimento. Ou Kapitein Geboorte, na intimidade que a língua holandesa já me permite.

12/08/2008 às 22:12


Arquivo pessoal

Arquivo pessoal / Cris e eu na estação e Barcelona após perder o trem: com cerveja a 1,20, a alegria demorou pouco para voltar.Cris e eu na estação e Barcelona após perder o trem: com cerveja a 1,20, a alegria demorou pouco para voltar.
Respondendo aos amigos que me escreveram perguntando do blog, não, ele não acabou. Digamos que o Populares hibernou um tempinho, já que me afastei do computador no período em que estive de férias – neste exato momento ainda curto os últimos dias de um descanso merecido. Portanto, àqueles que se preocuparam, obrigado.

Agora ao que interessa. Conforme o prometido antes do recesso, histórias insanas é que não faltaram nas minhas férias. Rodei a Europa nesse período. E como bom viajante pé-rapado, pedi abrigo a amigos que vivem no Velho Mundo para economizar grana com hospedagem. Portanto, meu muitíssimo e sincero obrigado aos amigos Robert, Tamara, Hugo, Anais, Guilhom, Juanito, Pablo, Baltasar, Evelyn, Jorgito, Thiago, Nair, Andrey e Kelly pelo carinho e atenção.

E a loucura já começou antes do embarque, na escolha do meu parceiro de viagem. Cristiano Ramos, o Cris, é meu amigo de infância. O cara tem um talento fora do comum pra se divertir e fazer os outros rirem. Tanto que acho que nunca o vi falando alguma coisa séria – e eu conheço o cara há 24 anos. Quando a coisa pegava na viagem, eu ficava pouco tempo aborrecido. Logo, logo o Cris dava um jeito de quebrar o gelo, falando uma megabesteira, e lá se ia a minha fúria. Como da vez em que perdemos o trem de Barcelona para Valência.

Não lembro bem o porquê, mas acordamos tarde naquela manhã... Tudo bem, eu lembro. Bebemos muito na noite anterior e não acordamos no horário. O trem sairia às 9 horas da manhã. Chegamos na estação às 9h20. Ficamos os dois enfurecidos. Ficamos mais enfurecidos ainda quando descobrimos o preço do próximo trem, que só tinha poltrona na primeira classe: 65 euros (havíamos pago 20 euros na passagem que perdemos). Como não tinha jeito, compramos - quando passou na maquininha, meu cartão de crédito chorava mais do que leitão sendo morto pra virar pururuca. Pra piorar, o trem só sairia às 14 horas e de outra estação...

Depois da facada, sentamos no banco da estação e começamos a discutir. Quando a briga começou a ficar feia, o Cris resolveu dar uma volta. Falei que era melhor mesmo ele sumir da minha frente.

Enquanto isso, liguei pro meu amigo Juan González, que nos hospedeou em sua casa, para avisar que chegaríamos atrasados a Valência. Contei o que havia acontecido e ele me respondeu às gargalhadas: "Marcos, no sé porque, pero esto que me dices no me sorpreende en nada..." Um dia em julho de 2007, quando conheci o Juanito viajando pela Argentina, eu tive que largar as malas no meio da rodoviária de Buenos Aires e sair correndo feito um louco atrás do ônibus que nos levaria a Rosário. Estávamos atrasados pelo mesmo motivo (não, eu não aprendi...).


Sei que não deu dez minutos e o Cris voltou, com um sorriso escancarado no rosto. Quando vi aquilo, meu sangue subiu ainda mais. “A gente se f... aqui e o cara rindo...” Mas na seqüência veio a explicação. Muito louvável, por sinal.

- Marquito, olha o que eu achei. Cerveja de litro a um eurico e 20 centavos!! – me mostrou ele com um sorriso de uma orelha a outra e duas garrafas da cerveja San Miguel nas mãos, adquiridas no mercadinho turco em frente à estação. Abre parêntesis – os imigrantes turcos, árabes e chineses têm uma função muitíssimo importante no complexo sistema da sociedade européia: vender coisas baratas a viajantes durões em seus mercadinhos e restaurantes. Deus salve esta gente! – fecha parêntesis. Pra quem vinha pagando a média de 3 euros por um simples copo de 300 ml de cerveja, encontrar garrafa de um litro a 1,20 era tirar a sorte muito grande.

Bebemos nossa cerveja e viajamos rindo de Barcelona a Valência, falando besteira o tempo todo, com a bela paisagem do litoral espanhol a passar pela janela de nossas poltronas amplas e confortáveis. Ali compreendi que a alegria realmente custa pouco. Mesmo quando ela viaja de primeira classe, em euros e é você quem paga.

01/07/2008 às 16:35

Senhoras e senhores, nos próximos dias estarei de férias. Portanto, este espaço estará temporariamente em recesso. Mas os senhores não perdem por esperar. Não é porque estarei descansando que deixarei de coletar boas histórias para aqui serem contadas. Aguardem!!!

18/06/2008 às 14:15

Omissão é dos defeitos mais deprimentes do caráter humano. Ao contrário de outros tantos - mesquinharia, ganância, avareza, etc -, omissão não é coisa de gente de má fé. Quem se omite não visa fazer maldade. Quem se omite quer apenas se livrar de responsabilidades. E nada mais deprimente do que uma pessoa que se esquiva de algo que é capaz de fazer só para evitar o incômodo de colidir com alguém.

A habilidade permite a Kaká se impor em campo. Pena que o talento sozinho não seja suficiente para fazer com que ele também se imponha fora do gramado.

Quem tem que decidir se quer ou não jogar a Olimpíada de Pequim é o próprio Kaká. Não os diretores do Milan. Ao contrário do trabalhador normal, que tem os carnês de contas pra pagar no fim do mês e não pode nem pensar em questionar o chefe que toma uma decisão errada com medo de perder o emprego, ele pode peitar seu superior. Mas não o faz. Prefere dar declarações sem sal – no bom português, tirar da reta. “Gostaria de ir à Olimpíada. Mas se o clube vetar, o que posso fazer?”, publica o site do jornal carioca O Globo.

Pode muito. Kaká poderia lembrar o presidente do Milan de que é o melhor do mundo. De que sozinho garante retorno de milhões de dólares ao clube. Também poderia lembrar que não vai jogar qualquer torneio. Vai representar a seleção de seu país em uma Olimpíada – sonho de qualquer atleta, ou ao menos dos sensatos.

Assim como fez o lateral Rafinha, que não tem nem 1% do prestígio de Kaká. O ex-jogador do Coritiba, principal cotado para assumir a ala direita em Pequim, deixou um recado muito claro aos dirigentes do alemão Schalke 04. “Se eu for convocado e não me liberarem, podem ter certeza de que vou arrumar a maior confusão."

Ao contrário de Kaká, Rafinha já se deu conta de que não basta saber se posicionar dentro das quatro linhas. É preciso se posicionar na vida.

04/06/2008 às 01:15

Gostaria muito de conhecer um desses diretores de novela. Eu me apresentaria ao sujeito e perguntaria sem cerimônias: meu amigo, diz aqui pra mim, só entre nós, que país é esse que vocês retratam aí nessas histórias. Porque o Brasil é que não é.

Toda vez que faço reportagem em delegacias, fico à procura de um computador com tela de plasma. Acredito piamente que um dia hei de encontrar um policial registrando boletim de ocorrência em um desses totens da modernidade. Igualzinho na televisão, naquelas salas empoladas, com direito a ar-condicionado e móveis novinhos em folha. Mas tem sido difícil encontrar. Muito difícil, eu diria. E olha que já rodei praticamente todas as delegacias de Curitiba e região a trabalho.

Não posso ser injusto: já vi sim computadores com tela de plasma em delegacias. Muitas vezes. Só que não estavam nas mesas dos policiais. Nem ligados à tomada. Estavam dentro de caixas de papelão. Eram apreensão de contrabando.

O mesmo se passa nos hospitais. Na novela, o sujeito chega agoniando ao pronto-socorro e sempre tem um leito à sua espera. Não só. Sempre tem toda uma equipe médica exclusivamente à disposição dele. Parece até que ficam esperando exatamente o dia em que aquele cara vai surgir porta adentro. Todas as atenções são para ele, o paciente vip da novela.

Não há superlotação dos leitos. Nem corredores cheios de macas com pacientes em estado crítico. Nem corre-corre de médicos e enfermeiros se desdobrando em mil para atender a um público que é o dobro, o triplo, o quádruplo da capacidade do hospital. E muito menos gente reclamando, quase agredindo os funcionários do hospital, pela falta de atendimento.

O médico examina, avalia a gravidade do paciente (ali mesmo, na hora, pois os equipamentos dos hospitais públicos de novelas nunca quebram) e não titubeia em ordenar: “Levem pra UTI". Tudo muito simples. Ligar pra Central de Leitos pra quê?

Nas escolas, nenhuma pichaçãozinha, nenhum rabisco, nada nas paredes. As carteiras todas lisinhas. As salas de aulas com o número certinho de alunos que o espaço realmente comporta. E, vejam o absurdo, os estudantes vão à escola pra aprender. Não pra comer a merenda ou garantir o direito dos pais de sacar o Bolsa Família.

Não há traficantes nas redondezas das escolas das novelas. Logo, nenhum dos estudantes tem contato com drogas. São adolescentes corados e saudáveis, que se dedicam exclusivamente a estudar, sem precisar ajudar os pais no trabalho.

Nas escolas particulares retratadas nas novelas, os alunos voltam tranqüilamente a pé pra casa. Todos ornamentados com seus ipods, mp3 players, celulares de última geração, roupas e tênis de marca. Os ladrões - se é que eles existem nas novelas - estão bem longe.

Nas escolas públicas da televisão, os alunos têm tudo à mão: computadores, bibliotecas cheias de livros, professores qualificados e com todo o tempo do mundo para preparar suas aulas e atividades extra-classe. Tanto que nenhum dos docentes nem sabe o que é licença médica. Essas coisas de estresse, síndrome do pânico e depressão não caem bem em um mundo tão perfeito.


Ah, como seria bom se nossos políticos deixassem de ser noveleiros e assistissem mais aos noticiários. Com certeza haveria muito menos dramas na vida real. Como haveria...

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