Em 1989, nos bastidores da campanha de Fernando Collor, alguém propôs que fosse exibido em horário eleitoral um vídeo que mostrava um fuzilamento em Cuba. Ao lado, acompanhando a execução, apareceria Luiz Inácio Lula da Silva, com um sorriso cínico. O vídeo era uma grosseira montagem e felizmente acabou não sendo utilizado na campanha, embora Collor tenha recorrido a outros expedientes baixos. Atualmente, Lula e Collor são fiéis aliados.
Em 2010, Lula se encarregou pessoalmente de transformar a farsa em realidade. Poucas horas depois da morte do dissidente Orlando Zapata, um dos 200 presos de consciência em Cuba, Lula visitou os irmãos Fidel e Raúl Castro. Exibiu largos sorrisos e posou para fotos ao lado dos ditadores. Permitiu-se fazer comentários cínicos sobre a morte de Zapata; menosprezou a carta que lhe fora enviada dias antes por dissidentes cubanos; ouviu Raúl Castro atribuir o acontecimento “ao conflito com os Estados Unidos”. Na prática, Lula culpou a vítima e congratulou-se com os algozes. Foi como se um presidente estrangeiro confraternizasse com os responsáveis pelas torturas no DOI-CODI em outubro de 1975, horas depois da morte do jornalista Vladimir Herzog nos porões da ditadura militar brasileira.
O poeta russo Joseph Brodsky, também ele vítima do socialismo, escreveu certa vez que o mal é sorridente. Nem mesmo todo o oceano seria suficiente para lavar as culpas de Fidel e Raúl Castro (17 mil executados e 80 mil afogados no mar, em estimativas conservadoras), mas eles sorriem. Lula e Franklin Martins, seu ministro da Propaganda, também sorriram enquanto o corpo de Orlando Zapata ainda estava quente.
Lula não pode dizer o que é a greve de fome porque jamais participou verdadeiramente de uma. Há trinta anos, quando esteve (injustamente) preso, montou uma farsa para posar de mártir. Muito ao contrário, a greve de fome de dissidentes cubanos se ampara na verdade: é um legítimo grito de socorro que os ouvidos presidenciais (um dia operários) se negaram a ouvir. Cem mil cadáveres depois, a morte de Zapata voltou a expor a natureza intrinsecamente absurda do regime cubano.
Enganou-se quem pensava que Lula iria pedir desculpas ou voltar atrás em suas declarações. Nos últimos dias, ele voltou a atacar os dissidentes cubanos, comparando-os a bandidos comuns. Em qualquer país civilizado, Lula estaria em maus lençóis. Mas não no Brasil. Aqui fazem festa para ele – e sua popularidade (só comparável à do general Médici ou à de Getúlio Vargas) continua crescendo.
Hoje mesmo o presidente visita Londrina – e a prefeitura se encarregou de limpar e maquiar as ruas por onde ele passará. Lula será recebido com boas-vindas e elogios. Não as minhas, não os meus.
Meus sete leitores sabem que levei muita bordoada quando critiquei Avatar. Fui chamado de conservador, capitalista, feio, chato, bobo e inimigo da natureza. Com exceção deste último, mereço todos os outros qualificativos. Mas, para minha surpresa, parece que a Academia de Hollywood concorda comigo. Avatar perdeu em todas as categorias importantes do Oscar, ficando apenas com três prêmios técnicos, considerados menores.
Ué, mas não era um filme genial? Não era uma revolução tecnológica? Não era a criação de um novo mundo, um novo idioma, uma nova biosfera? (Embora Star Trek, Star Wars, A Guerra do Fogo, Laranja Mecânica e os livros de Júlio Verne tenham feito isso muito melhor antes...) Não era um novo Titanic? Não era uma transformação tão importante quanto o advento do cinema colorido, do cinema falado, do próprio cinema? James Cameron não era uma incrível mistura de David Griffith, Orson Welles e Steven Spielberg?
É, minha gente, parece que Avatar não seguiu o exemplo dos Fogos Caramuru – e deu chabu no Oscar. Não sei se Guerra ao Terror é melhor que Avatar, pois ainda não vi o filme de Kathryn Bigelow. Mas o seu Cameron deve ter ficado azul de raiva com a premiação à ex-mulher. Por sinal, bela ex-mulher!
Confesso: achei que Avatar iria vencer o Oscar. Não seria a primeira vez que um filme ruim fatura o prêmio: vide Shakespeare Apaixonado, Entre dois amores e outras bobagens. Mas Avatar acabou fazendo companhia aos “grandes injustiçados” da Academia. Triste fim de Cameron Quaresma.
Não foi por acaso que eu achei Avatar menos emocionante que o cinema 180 graus do Playcenter. Passa amanhã, Cameron! E vê se aparece com um algo melhor.
Escrevam o que estou dizendo. Daqui a dez anos (talvez cinco) Avatar será a pálida lembrança de um mico cinematográfico, desenterrada nas conversas de salão.
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Não é por nada, não: Cameron, eu prefiro a Diaz.
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Na maioria das vezes, as vítimas da corrupção não aparecem. Quando os cofres públicos são roubados, as faces das vítimas se diluem na multidão, no anonimato da coletividade. Confiantes nessa ilusão de óptica, os corruptos conseguem novas vitórias eleitorais (temos um exemplo bem conhecido e próximo).
O caso da Bancoop é diferente. Agora as vítimas têm rosto, nome e sobrenome. Eram pessoas que sonhavam com a casa própria e foram lesadas. Queriam um teto e, sem saber, financiaram campanhas políticas, maracutaias, saques na boca do caixa.
Vocês devem estar lembrados da Encol, não? Nos anos 90, a Encol era um sinônimo de qualidade e popularidade. Chegou a ser a maior construtora do país. Escrevam o que estou dizendo: o PT é a Encol da política.
Em 1977, a Nasa lançou duas sondas espaciais exploratórias: Voyager 1 e 2. Nos anos seguintes, a missão Voyager passaria pelos planetas Júpiter (1979), Saturno (1981), Urano (1988) e Netuno (1992). Plutão, recentemente rebaixado à categoria de planeta anão, parece que ficou sem visita, mesmo porque sua órbita é bastante excêntrica. Em 2003, a Voyager deixou “oficialmente” o sistema solar. Movidas por geradores de plutônio, as sondas continuam navegando pelo espaço e enviando informações à Terra. Estima-se que a missão Voyager leve 40 mil anos para chegar à estrela mais próxima do Sol.
Já disse a vocês que sonhava em ser astrônomo? Eu era um moleque de 7 anos quando a primeira Voyager foi lançada (curiosamente, a 2 viajou antes da 1). O que mais me interessou na época, e interessa até hoje, é o conjunto de informações visuais e sonoras que as duas naves carregam pelo Universo. Trata-se do Disco Dourado da Voyager. Isso mesmo: um disco semelhante aos antigos LPs de vinil que os artistas recebiam ao vender mais de 100 mil cópias.
No Disco Dourado da Voyager, há 140 imagens analógicas da Terra; saudações em 55 idiomas (uma voz de mulher diz “Paz e felicidade a todos” com sotaque carioca); uma série de sons representativos do globo terrestre (a chuva, o vento, o mar, o fogo, um trem, um automóvel, um choro de bebê); e uma pequena antologia musical. A maioria das músicas é folclórica, de diversas partes do planeta. Há, por exemplo, o canto de matrimônio dos pigmeus e uma canção matinal dos aborígenes australianos. Destaque para a belíssima “Melancholy Blues”, com Louis Armstrong e seu Hot Seven.
Quatro compositores clássicos estão representados no Disco Dourado da Voyager: Bach, Mozart, Beethoven e Stravinsky. Johann Sebastian Bach é o único que tem três obras selecionadas: o primeiro movimento do Concerto Brandenburgo nº 2 (com regência de Karl Richter); a Partita nº 3 (com Arthur Grumiaux ao violino) e o Prelúdio e Fuga em Dó Maior (Livro 2 do Cravo Bem Temperado, com Glenn Gould ao piano). Noto que os três intérpretes de Bach morreram nos primeiros dez anos de viagem da Voyager: Richter em 1981; Gould, em 1982; Grumiaux, em 1986.
O prelúdio executado por Glenn Gould é uma das músicas que me acompanham sempre. Acho que eu a conhecia mesmo antes de escutá-la atentamente pela primeira vez, durante uma forte gripe que me deixou de cama em 2003 – o ano em que a Voyager deixou para trás as fronteiras do sistema solar.
Por onde andarão as duas sondas Voyager no exato instante em que escrevo estas linhas? Em breve, o choro de um bebê vai soar em minha casa. E isso me faz pensar que nós também somos seres errantes numa viagem ao desconhecido. Aquelas naves são nossas irmãs gêmeas, caminhando no espaço.
Não tenho currículo. Tinha, mas perdi. Se eu precisar de um emprego amanhã, terei que refazê-lo do nada.
Mas o que posso dizer de mim mesmo? Não muita coisa. Em religião, católico. Em política, democrata. Em economia, liberal. Em personalidade, conservador. Em temperamento, moderado. Em Carnaval (que eu não aprecio), Portela. Em futebol (que eu já apreciei mais), Palmeiras. Na Copa do Mundo, Brasil (mas sempre vou achar que o time de 1982 foi o melhor de todos os tempos). Profissão? Jornalista diplomado em Buraquinho, Bar do Jota e Clube da Esquina.
Sou quase um homem cordial. Não aquele de Sérgio Buarque de Holanda, mas o homem cordial strictu sensu. Não preciso de nenhum lacaio para cochichar em meu ouvido: Memento mori.
Há três mendigos na Vila, conhecidos por todos: o Cabeludo, o Barbudo e o Velho. Todos são cabeludos, barbudos e velhos, mas cada um deles tem uma dessas características mais evidente. Também são chamados de Os Três Reis Magros, embora magros não sejam, mas sim consideravelmente inchados de pinga e cansaço.
Nos últimos tempos, tenho visto apenas dois mendigos. O que terá acontecido ao terceiro, o Velho? Morreu? Conseguiu sair da Vila? Não adianta perguntar aos outros dois, porque a linguagem deles é incompreensível.
Numa aula que não matei na faculdade, a professora disse: “A realidade é dual, a interpretação da realidade é trina”. Ou foi o contrário? Não sei. Da faculdade, só lembro o Bar do Jota e o Clube da Esquina, além de um pouco de Valentino e Beco. E o Bar do Paulinho, como esquecer?
Guardei uma fórmula da faculdade: tese, antítese, síntese. O velho mito da dialética, proposto por Hegel, invertido por Marx e desmentido pelos fatos. A realidade desmoralizou a interpretação marxista.
Em literatura, sou russo (embora não fale nem leia o idioma). Há uma trindade na literatura russa: Tolstói, Dostoiévski e Turguêniev. Difícil saber quem é melhor. Acho que era Tolstói, mas os outros dois também não brincavam em serviço. Se acrescentarmos um quarto elemento, Tchekhov, a situação fica ainda mais complicada.
Em música, temos Bach, Mozart e Beethoven. Não tenho qualquer dificuldade em escolher o primeiro. Mas é difícil – não impossível – viver sem os outros dois.
Em música popular americana, há Gershwin, Irving Berlin e Cole Porter. Páreo difícil, sem barbadas. Fico com os três – na voz de Ella Fitzgerald. Mas, se houver espaço para um só, escolho Cole Porter, com dor no coração. “Strange, dear / But true, dear/ When I close to you, dear/ The stars fill the sky/ So in love with you am I.”
Antes de sair de casa, olho bem para mim mesmo. Penso nos Três Reis Magros, que agora são dois. A realidade é dual. A interpretação é trina. Não, o terceiro mendigo não morreu. O Velho sou eu.
Ouvi dizer que o Buraquinho já era. Ou já Elvis – como dizem alguns trocadilhistas. Não será este cronista a derramar uma lágrima. Mas registremos o fato.
O Buraquinho, para os que não sabem, é um local do Centro de Ciências Humanas, no campus da UEL, em que os estudantes se reuniam para conversar, fazer assembleias, matar aula, tocar Raul Seixas e outras coisas. (Eu mesmo acho que passei mais tempo no Buraquinho do que nas aulas do curso de jornalismo. E tem gente que ainda defende diploma obrigatório. Na verdade, acho que eu tenho diploma de Buraquinho.)
Parece que o Buraquinho agora tinha outro de nome. Tristes tempos! Até o Buraquinho ficou Quadrado. Na minha época, ainda se dizia “quadrado” para definir o que eu felizmente acabei me tornando.
Mas na época em que eu frequentava o Buraquinho eu não era quadrado, não, cara! Defendia a revolução permanente, a imaginação no poder, o fim do capitalismo, o controle operário da produção e um monte de outras besteiras potencialmente fatais. Lembro-me de uma vez em que passamos um frio danado ali, durante uma festa junina. O relógio do meu primo Beto marcou um grau abaixo de zero. Naquele tempo o inverno era frio; e o Buraquinho, aconchegante.
Pois é, decidiram tapar o Buraquinho. Mataram o lugar em que se matava aula. Uma vez fui convocado para tocar violão e cantar naquele palco legendário, mas recusei. Era muita responsabilidade para pouca afinação. Permaneci inédito no Buraquinho – e acabei ficando quadrado.
Alguns saudosistas dirão que acabar com o Buraquinho é o fundo do poço. Que o Buraquinho é público. Que o Buraquinho é do povo como o céu é do condor (não o supermercado, a ave).
Aparecerá mesmo quem defenda o tombamento do Buraquinho. A estatização do Buraquinho. O abraço ao Buraquinho. A cassação do prefeito do campus que mandou tapar o Buraquinho. A refundação (ou, se isto existe, a recavação) do Buraquinho. Buraquinho? Tô dentro! – será o slogan da campanha. (By Aurélio Cardoso - todos os direitos reservados.)
Alguém vai convocar uma assembleia para discutir o Buraquinho. Será uma assembleia com muitas questões de ordem, encaminhamentos e apartes. Ampla maioria de gatos-pingados decidirá pela ocupação pacífica do Buraquinho. Afinal, aquele lugar tem história. Tapados taparam o Buraquinho? Não importa: destapá-lo-emos! Afinal, todos sabemos que o Buraquinho é mais embaixo.
Para piorar as coisas, a Reitoria agora quer reformar o Pinicão – lendário anfiteatro em que se realizavam as grandes assembléias universitárias. Terá o Pinicão o mesmo destino do Buraquinho? Seria injustiça demais. Não podemos deixar que a História vá pelo ralo!
Ops, voltei a falar como nos meus tempos de Buraquinho. Melhor parar por aqui.
INVENTÁRIO
Casaram-se.
Viveram juntos por meio século.
Ele morreu no dia trinta.
Ela não passou de um mês.
Não tiveram filhos.
Não deixaram bens,
só um monte de livros.
E onde houver linha
que se possa ler
e reler,
estarão juntos
e felizes e vivos.
Estão livres.
São livros.
*****
DEZ, CEM, MIL
Dez vezes você
encontrasse meu pai
no corredor,
dez vezes ele
diria bom dia:
– Como vai o senhor?
Dez vezes você
cruzasse meu pai
no supermercado,
dez vezes ele
sorrir-lhe-ia:
– Como tem passado?
Cem vezes você
chamasse meu pai
diante do perigo,
cem vezes ele
atenderia:
– Deixe comigo.
Mil vezes você
lhe perguntasse
sobre o passado,
mil vezes ele
relembraria:
– Muito obrigado.
Meu pai não era dez.
Nem dez, nem cem, nem mil.
Um número, meu pai,
que a pura matemática
nunca descobriu.
– O mundo está vazio.
*****
O NOTÍVAGO DA VILA
Eu sou o homem que volta pra casa
no fim de uma noite nunca dormida.
Aquele que come um pastel na feira
e a cada manhã se despede da vida.
Eu sou o homem que conta ladrilhos,
que sonha sem sonho, anda nas trevas,
e joga baralho apenas consigo:
uma paciência sem naipe, sem regras,
em plena manhã de segunda-feira.
Procuro um canteiro de flores mudas,
hastes de limbo, pólen de derrota.
Procuro as coisas mais absurdas
tão pequeninas que ninguém as nota
– são delicadas as minhas musas.
Eu sou o cara que chuta pedrinhas,
que canta sem voz e ri sem piada,
que dói sem doença e fala sozinho,
e, quando se põe a preencher as linhas,
ao fim da sentença não lhe resta nada.
Eu sou o cara que tem um cachorro
e espera o dia de Pedro nascer.
Se às vezes calo, se às vezes morro,
serei eu sempre o primeiro a saber.
Trotsky disse que o comunismo transformaria todo operário em um Goethe. O socialismo cubano transformou o operário Orlando Zapata em pó – sem contar os 17 mil fuzilados e os 80 mil afogados. A ilha-prisão de Fidel e Raúl Castro ainda tem seus admiradores no Brasil. E o pior é que um deles ocupa o cargo mais alto do país.
Já disse – e reafirmo: não acredito em acasos. Horas depois que o preso de consciência Orlando Zapata morreu - ao fim de 82 dias de fome e 18 de sede -, o ex-operário Lula confraternizou com os algozes do dissidente cubano. Ao lado dos Irmãos Cara-de-Pau, Lula sorriu com a placidez de um pisa-cadáveres.
Cerca de 50 presos políticos enviaram uma carta a Lula, denunciando maus-tratos nos cárceres cubanos. O ex-operário respondeu em tom de indignação: “Eu não recebi nenhuma carta. As pessoas precisam parar com o hábito de fazerem carta, guardarem para si e depois dizerem que mandaram para os outros. Se eles tivessem pedido para mim para conversar comigo, eu teria conversado com eles, qualquer presidente teria conversado com eles”.
Dissidentes cubanos criticaram a omissão de Lula. O presidente brasileiro passou da indignação para a ironia: “Se eles já são dissidentes de Cuba e agora querem ser dissidentes do Lula, não tem problema nenhum”.
As respostas de Lula me fizeram lembrar um bilhete assinado pelo marechal russo Kliment Vorochílov em 3 de setembro de 1936. Ao receber uma carta do companheiro Nikolai Bukhárin, que estava sofrendo perseguições do governo stalinista, Vorochílov deu uma resposta que o historiador inglês Simon Sebag Montefiore define como “uma obra de amoralidade, crueldade, medo e covardia”:
“Ao camarada Bukhárin, devolvo sua carta em que você se permite fazer ataques vis à liderança do Partido. Se estava esperando (...) me convencer de sua completa inocência, tudo de que conseguiu me convencer é que a partir de agora devo me distanciar de você. (...) E se você não repudiar por escrito seus maldosos epítetos contra a liderança do Partido, deverei mesmo considerá-lo um canalha.”
Ex-amigo íntimo de Stálin e Vorochílov, citado por Lênin como “o favorito do Partido”, Nikolai Bukhárin foi condenado por falsos crimes e fuzilado em 1938. Se alguma coisa ficou clara no episódio de Orlando Zapata, foi que os dissidentes cubanos não podem contar com a ajuda de Lula. Ele está para Raúl Castro da mesma maneira que Vorochílov estava para Josef Stálin. Com uma vantagem para o marechal russo: pelo menos ele admitiu a existência da carta de Bukhárin.
Enquanto isso, Marco Aurélio Top Top Garcia, o guru internacionalista de Lula, ataca os seriados da TV por assinatura. Pois eu acho que meio episódio de Law & Order vale mais do que os discursos completos de Lula, esse Vorochílov macunaímico. Mas convém admitir: um seriado com o título de Law & Order jamais poderia agradar a um medalhão do PT.
Todos os dias há sumiço de gente, cachorro e gato. Já vi um anúncio de arara desaparecida. Há um belo conto de Isaac Bashevis Singer sobre um periquito encontrado por acaso – e que acaba levando à união de duas famílias. No filme “Madadayo”, de Akira Kurosawa, o sumiço de um gato faz um professor nonagenário chorar feito menino. Bichos desaparecidos deixam crianças e adultos doentes de tristeza. Confesso que nunca tinha visto uma tartaruga desaparecida, mas o jornal de ontem noticiou o sumiço de um quelônio.
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Nas fábulas, a tartaruga quase sempre simboliza paciência e lentidão. Lembram-se do parodoxo de Zenão? (O Zenão da Grécia, não o do Corinthians, aliás Zenon.) O herói Aquiles, o mais veloz dos mortais, disputa uma corrida de 100 metros com uma tartaruga, o mais lento dos seres vivos. Os termos da corrida são seguintes: Aquiles tem dez vezes a velocidade da tartaruga; e a tartaruga, por andar tão devagarinho, recebe uma vantagem de 80 metros na frente de Aquiles. O problema está na conexão entre a velocidade de Aquiles e a da tartaruga. Se em qualquer circunstância Aquiles é dez vezes mais veloz que a tartaruga, a tartaruga sempre estará um pouquinho na frente. Paciência, Aquiles.
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Cisquinho não estava muito bem ontem. Rabo caído, jeito amuado, mais dengoso que a média. Decidimos levá-lo ao veterinário. Era dor de barriga – e olhem que ele quase não tem barriga.
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Qualquer dia vou levar o Cisco para um passeio na Vila. Fico imaginando o que meu pai acharia dele. Em tempos idos, o nosso cachorro Ace, também vira-lata, e estranhamente parecido com o Cisco, era o principal companheiro de caminhadas do meu pai. Ace era tão esperto que Vó Maria comentava: “Esse cachorro um dia ainda vai falar!”
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– Paulão!
Era o meu pai no Kotovelo’s. Só ele me chama de Paulão, embora seja o Paulo mais velho.
– E aí, pai? Tudo certo? Este é o Cisco. Não é parecido com o Ace?
– Lembra, lembra muito. Ele já melhorou?
– Quase 100%. Mas sabe o que aconteceu ontem? Ligaram em casa perguntando se era o telefone do Bolsa Família. Tive que me segurar para não responder com a voz do homem: “Olha, você ligou pro lugar certo. Quem diz que não dá pra ter Bolsa Família? É claro que dá! Basta você votar na Dilma presidente!”
Meu pai deu uma grande risada. Ele adora minhas imitações, por mais toscas que sejam. Mas completou:
– Na próxima crônica, fale de uma tartaruga que acabou de passar por aqui. O nome dela era Aquiles.
Seres estranhos vivem nos miolos de quadra. Ele era funcionário de autarquia. Careca, esquálido e esquivo, morava de aluguel num puxadinho. No cemitério da Vila, seu local de trabalho, desempenhava função burocrática e indefinível. Ia para o serviço bem cedo e não dava bom-dia a ninguém. Quando sua figura cinzenta passava, ao final da tarde, os meninos interrompiam o futebol. A partida só recomeçava quando ele desaparecia por completo nos fundos da Vila. Se o cumprimentavam, fingia-se de morto.
O quintal da minha república fazia fronteira com a edícula do funcionário. Nas manhãs de domingo, ele ia à padaria da Sônia e voltava com um embrulho.
Às duas da tarde, começavas a cantar e chorar. Ouvindo-te, descobri a tua real identidade: “Ainda é cedo, amor/ Mal começaste a conhecer a vida / Já anuncias a hora da partida / Sem saber mesmo o rumo que irás tomar”.
Eras Tu. Para os gramáticos, Segunda Pessoa do Singular. Bebias e choravas porque ninguém se importava contigo. Mesmo os gaúchos e cariocas, que às vezes te usavam na conversa diária, faziam a concordância com o famigerado Você.
Lá pelas quatro da tarde, quando a pinga já tiranizava teus miolos, passavas a recitar versos. Eram sempre os mesmos poemas. Vinicius de Moraes: “Não te rias de mim, que as minhas lágrimas/ São água para as flores que plantaste/ No meu ser infeliz, e isso lhe baste/ Para querer-te sempre mais e mais...”.
Quem seria a mulher perdida?, eu pensava. O velho Camões igualmente despertava lembranças amorosas: “... E se vires que pode merecer-te/ alguma cousa a dor que me ficou/ da mágoa, sem remédio, de perder-te // roga a Deus, que teus anos encurtou, /que tão cedo de cá me leve a ver-te,/ quão cedo de meus olhos te levou”.
Conforme a tarde avançava, e os rádios da vizinhança anunciavam gols intermináveis, que eu veria depois no Fantástico (“Olhe bem, preste atenção...”), Tu recordavas outra Segunda Pessoa, que certa vez chorou sangue: “Não me move, meu Deus, para querer-te/ O céu que me hás um dia prometido:/ E nem me move o inferno tão temido/ Para deixar por isso de ofender-te.// Tu me moves, Senhor, move-me o ver-te/ Cravado nessa cruz e escarnecido./ Move-me no teu corpo tão ferido/ Ver o suor de agonia que ele verte...”.
Bandeira era uma de tuas preferências. Quando vinha a noite de domingo, e com ela a musiquinha do Fantástico, ouvia-se ao fundo a tua voz engrolada, qual um pedido de desculpas pela inconveniência: “Eu faço versos como quem chora / De desalento... de desencanto.../ Fecha o meu livro, se por agora/ Não tens motivo nenhum de pranto”.
E à noite, quando ias dormir abraçado à Grande Angústia, não nos era possível imaginar teus sonhos. Seres estranhos vivem nos miolos de quadra.
Homero vai viajar de novo. Seguirá o Caminho das Índias. Ora, quem está surpreso? Foi um xará do prefeito quem descreveu as viagens de Ulisses, herói que viajou por vários anos até conseguir voltar para casa. Dizem que o outro Homero era cego. Viajava de aldeia em aldeia, cantando as aventuras que se tornaram a “Ilíada” e a “Odisseia”. Quer dizer: a literatura ocidental começou em viagem. E Lula, o Cara, o Guia Genial dos Povos, não tem 110% de popularidade mesmo viajando o tempo todo? Deixem o homem viajar!
Homero e Ulisses; Cervantes e Quixote; Gama e Camões; Conrad e Kurtz... Não faltam exemplos de autor e personagem que deitaram o cabelo, caíram na estrada, mexeram o doce, picaram a mula, procuraram o sol nascente e “passaram ainda além da Taprobana”. Só não usavam dinheiro público.
Dom Quixote, o Cavaleiro de Triste Figura, viajou pela Espanha, ao lado de Sancho Pança, combatendo “vilões ruins” para ser digno do amor de sua amada imaginária Dulcineia Del Toboso. Sterne empreendeu a sua “Viagem Sentimental”. Na pena de Swift, Gulliver viajou para a terra dos homens pequenos e voltou com mania de grandeza.
Garrett fez “Viagens na minha terra” – livro que não é muito do gosto homérico. Proust optou por outro caminho em busca do tempo perdido. Joyce traçou seu itinerário nas ruas de Dublin. Kerouac cruzou os Estados Unidos – e escreveu “On the road”. Henry Miller também quis viajar pela América – e escreveu “Pesadelo refrigerado”. O darwinismo não existiria sem viagem: que é “A Origem das Espécies” senão o resultado de um périplo? Darwin foi de barco, por vontade própria; Jorge Semprun foi colocado num vagão lotado de prisioneiros, em direção a Buchenwald.
A língua que falamos hoje é fruto das viagens. Foi a viagem de Cabral que trouxe o português para a Terra de Santa Cruz. E a viagem de Vasco da Gama, ao ser imortalizada por Camões em “Os Lusíadas”, fixou para sempre a língua portuguesa. Pessoa, ciumento que só ele (ou eles), disse que o imperador do idioma era o Padre Vieira, e não Camões. Há lugar para os três – e ainda sobra espaço para Herberto Helder, marujo da língua e autor de “Os passos em volta”.
Gonçalves Dias, que escreveu a “Canção do Exílio”, morreu em trânsito, vítima de naufrágio. Parecida tragédia acaba de levar Arnaud Rodrigues, parceiro de Chico Anísio nas viagens de Baiano e os Novos Caetanos.
Mesmo com os eventuais riscos, quem não se fascina com viagens é porque não leu Júlio Verne na infância. Rodar o globo em 80 dias, descer 20 mil léguas submarinas, conhecer o centro da Terra, alunissar... Quem não se lembra dos seriados “Perdidos no Espaço”, “Jornada nas Estrelas”, “O Carona”, “O Incrível Hulk”? São diferentes e curiosas viagens somente com passagem de ida...
Não que eu esteja insinuando nada. Deixem o Homero viajar. Um dia ele volta – como bem sabia Penélope.