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APRENDIZADO

A difícil arte de fazer cultura sem dinheiro público

Espaço Humanitas realiza cursos voltados para aperfeiçoamento cultural do indivíduo. Literatura, cinema, música clássica e rock estão entre os temas

02/04/2008 | 19:42 | Paulo Briguet

De uns tempos para cá, a cultura foi estatizada em Londrina. Tornou-se raro encontrar alguma produção que não seja seguida pelos nomes Promic, Rouanet ou Petrobrás. Diante disso, é louvável, e até mesmo heróica, a iniciativa de alguns que decidiram fazer cultura sem dinheiro público. É o caso do Espaço Humanitas, recém-criado pelos educadores Silvio Grimaldo e Tiago Ponti. Trata-se de um centro de educação que utiliza a arte e a alta cultura para o aprimoramento intelectual dos indivíduos. Se você está mais interessado em diplomas, certificados, canudos, títulos ou licenças profissionais, esqueça o Espaço Humanitas. Ali, o aprendizado é um finalidade em si mesmo.

O Espaço Humanitas inicia a sua programação com a realização dos seguintes cursos: “Educação pela leitura dos clássicos”, com Silvio Grimaldo; “Lógica e raciocínio matemático”, com Tiago Ponti e Abílio Bedin; “História do cinema”, com Rodrigo Poreli Bueno; “Para escutar os clássicos”, com Robison Poreli Bueno; e “Uma história do rock’n roll”, com Nilson Fakir. Os cursos têm duração média de dois meses e são pagos. (Não tem dinheiro público na história...)

“Nossa idéia foi criar uma escola independente, onde o aluno faz o curso porque é amador – no sentido de amar a arte e a cultura”, explica Silvio Grimaldo, que é formado em Sociologia pela USP e foi aluno do filósofo Olavo de Carvalho. A seguir, leia os principais trechos da entrevista com Grimaldo e Nilson Fakir.

Serviço – Espaço Humanitas – Rua Paes Leme, 795, sala 4. Fone: 3322-6698. Mais informações: www.espacohumanitas.com.br

Entrevista Silvio Grimaldo e Nilson Fakir, professores do Espaço Humanitas

“Educação virou simulacro e doutrinação ideológica”

JL: O Espaço Humanitas se inspira em algum modelo clássico ou moderno de academia?

Silvio Grimaldo: A idéia que nos inspira é a da educação liberal. Vem das artes liberais da Idade Média, em oposição às artes servis. As artes servis eram atividades profissionalizantes. Era o ensino dos ofícios – ferreiro, sapateiro, carpinteiro. As artes liberais basicamente eram as artes da linguagem, voltadas para os homens livres. Eram artes contemplativas, que tinham um fim em si mesmas. Você não era educado para produzir alguma coisa palpável, um objeto. Você estudava porque aquilo era um bem. E o único bem a que essas artes visavam era o indivíduo.

E é difícil encontrar esse tipo de educação atualmente?

Silvio Grimaldo: Hoje, na maioria dos casos, a educação tem dois objetivos que nada tem a ver com a idéia original do aprendizado. Há o objetivo utilitário, com a proliferação das faculdades particulares: o cara vai lá estudar para ter uma profissão. Até aí nada de errado. O sujeito precisa ter uma profissão. O problema é que a educação profissionalizante degringolou tanto que virou um simulacro. A escola virou uma espécie de chantagem, uma reserva de mercado: se você não vier aqui, não vai ter emprego. A outra tendência, que se verifica nas universidades públicas, é a doutrinação ideológica. O indivíduo vira uma peça na engrenagem para servir ao grupo que está no poder. Durante a ditadura, havia a educação moral e cívica. Hoje você tem educação para a cidadania do PT. E assim vai.

De que forma vocês fazem a análise das obras clássicas? Silvio Grimaldo: O curso não é exatamente de literatura, nem de filosofia. A idéia é pegar as obras e fazer um contraste dos símbolos que são retratados nas obras com a experiência pessoal do leitor. É um método que Platão chama de anamnese, baseado em recordações. As grandes obras que vamos estudar – Apologia de Sócrates, Hamlet, Édipo, Crime e castigo, O Estrangeiro, O Alienista – falam de experiências universais.

Como será o curso de História do Rock? Nilson Fakir: Hoje em dia as pessoas não tem referência sobre rock. Qualquer coisa é rock. Recentemente, Estive num colégio da cidade onversei a garotada. Eles ouvem hip hop e dizem que é rock. Qualquer coisa é rock. Os caras não sabem de onde vem aquilo. Atitude, para muita gente, é franja e cinto de tachinha. Isso é idiota. Na verdade, o rock é a forma de música mais sofrida do século 20, foi o catalisador das grandes mudanças comportamentais. E é assim que a gente vai estudar o assunto.

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