Resíduos de medicamentos podem contaminar o solo e a água se forem descartados no lixo ou na rede de esgoto. O descarte incorreto é uma das três formas de intoxicação por remédios
No momento em que você lê esta reportagem, deve haver medicamentos guardados em seu armário. Alguns não são mais utilizados e outros já estão vencidos e precisam ser jogados no lixo. Mas como contêm substâncias químicas que podem contaminar o solo e a água, os medicamentos não devem ser descartados no lixo comum. O problema é que boa parte da população não sabe disso e não há postos de recolhimento na cidade.
Os remédios estão entre as principais causas de intoxicação atendidas pelo Centro de Controle de Intoxicações (CCI). Em 2007, foram 372 casos, o que representa 24% dos atendimentos causados por intoxicação de medicamentos, superados apenas pelos casos de picadas ou mordidas de animais peçonhentos. A chefe do CCI, Conceição Turini, afirma que existem três formas de intoxicação por remédios: a auto-intoxicação, acidentes com crianças e o descarte inadequado. “Os catadores de lixo podem entrar em contato com esses medicamentos e fazer uso inadequado. Qualquer medicamento usado inadequadamente oferece riscos”, afirma ela.
Após pesquisar o assunto, a estudante do curso de ciências biológicas da Unifil Alessandra Cabral Leite Duim concluiu que o descarte de medicamentos na rede de esgoto ou no lixo comum provoca a poluição do meio ambiente e a volta do remédio para as residências. “Os remédios têm componentes resistentes que se não forem tratados acabam voltando para nossa casa e a gente consome água com remédio. Eles são produtos químicos e não podem ser jogados no lixo”, orienta.
Alessandra Duim acredita que há algumas alternativas para evitar o descarte de medicamentos no lixo comum e na rede de esgoto. Uma delas é criar pontos para coleta dos remédios vencidos e encaminhá-los para o descarte adequado. “Isso evita que os remédios sejam descartados no lixo doméstico e na rede de esgoto. Os remédios vencidos devem ser recolhidos por uma empresa especializada e incinerados”, observa ela.
Outra alternativa, segundo a estudante, é a doação dos medicamentos que não são mais utilizados. “Eles não podem estar vencidos e, dependendo dos medicamentos, podem ser destinado a ONG’s e igrejas que analisam os remédios doados e passam para pessoas carentes”, diz. Conceição Turini alerta para os cuidados de receber medicamentos doados. “É preciso saber a procedência. Não se devem pegar remédios com vizinhos ou parentes, mas com a orientação correta”, afirma a chefe do CCI.
Uma terceira opção é a compra de remédios fracionados, isto é, comprar apenas os medicamentos na quantidade necessária ao uso, o que evitaria o acúmulo desnecessário. A prática é pouco comum entre as farmácias. “Isso seria o ideal, pois o indivíduo compraria apenas a quantidade necessária, evitando o descarte inadequado no lixo”, ressalta. Conceição Turini alerta ainda para que, se um medicamento for encontrado no lixo, seja encaminhado para a Vigilância Sanitária.
descarte Ana compra remédios a cada 15 dias
A chefe administrativa Ana Maria Mazzei compra remédios de 15 em 15 dias. Ela conta que vai à farmácia para reabastecer a pequena farmácia em casa com remédios que ela e a família utilizam diariamente, além dos que o médico recomenda. “Como minha mãe tem muitos netos e filhos, ela não deixa faltar remédios. Quando percebe que está acabando, a gente vai à farmácia e compra de novo. Têm os de dor de cabeça, para o estômago e também os receitados pelo médico, como os de asma”, afirma.
Ela conta que nem sempre utiliza o remédio receitado pelo médico até o final. “Se ataca a labirintite ou a asma novamente, vou ao médico e ele receita outro medicamento. O remédio anterior sobra e assim vai acumulando. Outro detalhe é que o farmacêutico sempre oferece algo a mais e eu acabo levando desnecessariamente”, diz. No momento da entrevista, Ana Mazzei contou 35 remédios diferentes no armário.
Segundo ela, muitos remédios ficam guardados para uma eventual necessidade. “Vai que eu preciso de novo. A gente só vai ver que ele está vencido na hora em que precisa usá-lo. Então, a gente joga no lixo e corre na farmácia para comprar outro”, conta. Ela explica que os remédios líquidos são jogados na pia e que os comprimidos são jogados no lixo reciclável. “O que sobra deveríamos levar no posto para doar para quem precisa. Acho que os remédios usados devem favorecer quem precisa e não tem condições”, afirma.
Farmácia Comunitária recebe doações de remédios Há cinco anos, a Pastoral da Saúde da Paróquia dos Sagrados Corações montou uma Farmácia Comunitária para atender pessoas carentes que não têm condições de comprar medicamentos. “A Farmácia começou com uma prateleira”, lembra o farmacêutico aposentado Jorge Chiromatzo, que cuida do projeto.
Quem abastece a farmácia, conta ele, são médicos, laboratórios, viajantes e a comunidade da paróquia. “Muitos usam dois ou três comprimidos de uma caixa de remédios e doam o resto. A gente só não tem interesse nos medicamentos controlados, pois é mais complicado”, afirma Chiromatzo. Ele explica que, em casos de urgência, quando não há o medicamento na Farmácia Comunitária, eles fazem um esforço para comprá-lo. “A prioridade são as pessoas com pneumonia e que fizeram cirurgia do coração. Quando o remédio é muito caro, a paróquia e a comunidade ajudam e a gente consegue descontos nos laboratórios”, conta.
Chiromatzo explica que procura não deixar os medicamentos vencerem. “A gente tenta trocar com outras farmácias comunitárias nas paróquias Coração de Maria, Nossa Senhora das Graças e no Santuário Nossa Senhora Aparecida”, diz.
Segundo o aposentado, os remédios mais simples são encontrados em grande quantidade e os remédios mais caros ou para pneumonia, coração e colesterol sempre faltam. Ele afirma ainda que os medicamentos são avaliados antes de serem doados. “Nem sempre o remédio está perfeito. Eles passam por uma avaliação para ver se estão bons”, conta.
Chiromatzo explica ainda que a Farmácia atende qualquer pessoa. “Se precisa de remédio a gente atende, quando tem”, diz. Para receber medicamento, é preciso levar a receita e fazer um cadastro. Para doar, basta levar na paróquia (Rua Mato Grosso nº 1167) ou pelo telefone 3329-7064 e 9951-9155. “A pessoa pode trazer até a paróquia das 15 às 18 horas ou, se ela não puder, a gente vai buscar.”
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