Carteiros vão a bairros carentes para levar presentes, e alegria, às crianças
“Papai Noel, aqui!”, “oba, presente!”, “aquiiii, Papai Noel!”. Quem grita são crianças de bairros carentes, diante de casas do tamanho de um cômodo e com a frente ainda de chão batido, quando avistam “Papai Noel” um pouco diferente do convencional. Ele não está de vermelho e não tem barba longa. Quem passa são dois carteiros dentro de uma Kombi de um amarelo inconfundível. Para qualquer um, seriam apenas carteiros. Mas, para os olhos de crianças carentes, que escreveram cartinhas pedindo um presente, personificam o bom velhinho – afinal, eles estão ali não para entregar encomendas ou cartas, mas presentes embrulhados em esperança.
Os carteiros Firmino Alécio Camargo e Ademir Pereira acabaram de terminar o expediente de sábado – são 13 horas. Mas não param. Da central de operações dos Correios, na PR-445 (zona sul), partem com um lote de presentes para o Jardim Olímpico, logo ali atrás, um dos bairros mais carentes de Londrina. O trabalho é voluntário: vão levar presentes para crianças que escreveram ao Papai Noel e que tiveram a cartinha adotada por alguém que ficou no anonimato, mas com o sentimento de ter alegrado uma criança.
Quem fez isso, pode realmente ficar feliz, pois, na verdade, felicidade era o que estampava o rosto do pequeno Marcus Vinicius Andrade dos Santos, de 5 anos, quando viu a Kombi dos Correios parando à porta da casa dele. “Eu mandei cartinha para o Papai Noel!”, repetia em êxtase por ver o pedido atendido. Os outros quatro irmãos também foram atendidos. “O Marquinhos ficou a semana inteira esperando. Agradeço muito pelos presentes”, afirma a mãe Adriana Andrade.
Firmino e Ademir continuam a missão. “Corre, vai chamar o David”, grita a mãe do menino, de 9 anos, ao ver o “trenó amarelo” parando em frente à casa dela. Com uma pipa na mão, David chega em seguida. Na verdade, ele queria uma bicicleta...mas ganhou um bilboquê e ficou feliz.
Logo adiante, é a vez de Larissa D´Ávila, de 9 anos. “Eu pedi uma sandália, uma boneca e roupa. Foi a primeira vez que mandei uma cartinha e não imaginava que ia ganhar. Pelo jeito, ganhei uma sandália. Espero que seja da Moranguinho”, afirma a menina, que logo vai abrindo o presente.
O “trenó” segue. Mas na casa de Loriane não tem ninguém. “Vocês vieram trazer presente para ela?”, pergunta a vizinha Marlene Camargo. Ao sinal afirmativo dos carteiros ela emenda: “Mas então volta outro dia, porque essa menina está louca esperando o Papai Noel. Vocês vão voltar, né?”, diz, preocupada. Sim, segunda será feita uma nova tentativa. “Mas não fala para a menina que a gente veio, porque esperar até segunda para ela é muito tempo. Avisa só a mãe”, aconselha Firmino.
E lá segue a Kombi, que por onde passa no Jardim Olímpico é acompanha pelos olhos de dezenas de crianças. É naquele carro que está a esperança de um Natal inesquecível, pois muitas crianças não têm condições de receber presentes que não sejam, realmente, do Papai Noel.
Adoção de cartinhas começou no Paraná O sol está quente, a barriga ronca de fome e alguns endereços são difíceis de achar. Mas os carteiros Firmino Alécio Camargo e Ademir Pereira não desistem. “Eu fico muito emocionado de fazer essas entregas. A gente recebe cada abraço que jamais esquece”, afirma Firmino. Ele não deixa dúvida. Logo depois que entregou o presente para o pequeno Marcus Vinicius Andrade dos Santos, a voz embargou. “Se eu tivesse que falar naquela hora, eu caia no choro.”
É essa satisfação que leva os carteiros e muitos funcionários dos Correios a se esforçarem para entregar todos os presentes que recebem. Foi nos Correios do Paraná, em 1994, que surgiu a idéia de atender as cartinhas. Os Correios as recebem e colocam à disposição da população. Quem quiser, escolhe uma ou mais cartinhas. O presente é entregue pelos carteiros. Hoje o projeto social já é adotado em todas as unidades dos Correios pelo Brasil. (S.M.)
Quem quiser, ainda pode adotar cartas “O trabalho para nós é grande, pois nessa época do ano temos muita encomenda para entregar. Mas quando a gente leva os presentes para as crianças, ficamos muito sensibilizados, pois muitas são realmente carentes. Isso nos motiva a nos esforçar e dar conta de todas as entregas das crianças. É muito emocionante”, afirma o gerente do Centro de Entregas de Encomendas de Londrina, Indalécio Aparecido da Silva. Mas também há momentos de tristeza. “A gente leva o presente para uma criança e na mesma rua tem outra, também esperando, que não teve a cartinha atendida. Muitas ficam decepcionadas”, afirma. Mesmo que o Natal passe, quem quiser ainda pode adotar uma dessas crianças e alegrá-la. “Há muitas que pedem material escolar”, afirma Indalécio. Para isso, basta ir à Agência Central dos Correios e escolher uma cartinha (Rua Egídio Camargo Amaral, 246, em frente ao Bosque Municipal e ao lado da Biblioteca Municipal).
7,2 mil cartas com pedidos ao Papai Noel foram enviadas aos Correios este ano; quase
3 mil foram atendidas
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